No bairro do amor
há sempre lugar para mais alguém
que sofreu por não ter ninguém
há quem pergunte a sorrir
deixa(s)-me falar-te da minha solidão (?)
a vida corre sempre igual
é uma zona marginal
onde cada um tem de tratar
das suas nódoas negras sentimentais
deixa-me abrir contigo
é bom sorrir um pouco
descontrair um pouco
eu sei que tu (me)compreendes bem.
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O Mundo do Vasco – III - Os sapatos de verniz
- Oh Vasco amanhã jogamos contra os do Talasnal, no campo da escola, queres ser guarda-redes? – Não tenho equipamento. – Arranjas umas coisas pretas lá em casa. – Mas de preto não é o árbitro? – O árbitro é o Carlos padeiro, vai pedir umas calças ao pai e vem de branco.
Revolveu a casa à socapa até conseguir juntar uma indumentária adequada à ocasião. Os sapatos de verniz e as meias de lã até ao joelho que o pai tinha usado apenas no dia do casamento e no enterro do avô, os calções cinzentos com que tomava banho no rio no verão e que serviam de roupa interior no inverno e uma camisola de manga à cava da avó que era quem tinha mais roupa preta lá em casa.
Os de Talasnal eram mais altos, mais gordos e mais fortes e quase tão arruaceiros como os de Penela. Começa o jogo e rapidamente se transforma num festival de sarrafada, com o circo armado pelos locais, em volta do campo, a insultar tudo o que mexia. O Tó perde a bola no meio campo e o Penedos do Talasnal isola-se frente ao Vasco impotente que ainda se lhe lança aos pés, leva uma patada no estômago e fica no chão, a ver a bola passar-lhe por cima, por entre as estrelinhas prateadas que lhe pululam de todos os orifícios da cabeça.
- É pá, quem é que pôs o bala perdida na baliza? Então não sabem que o rapaz se põe um olho na bola, o outro fica a olhar para o sino da igreja?
O Vasco ouviu e fica possesso, lança-se a todas as bolas desenfreado, ora com as mãos, ora com os pés. Antes do intervalo, já o Tó empatara, com um golo de cabeça, numa bola dividida com a cabeça do adversário que seguiu para a enfermaria enquanto os colegas apelidavam o Carlos padeiro de cobras e lagartos e outros bichos com chifres. As meias do Vasco podiam ver-se, por entre as biqueiras dos sapatos, a fazer lembrar sapos de boca escancarada.
Penalty! contra o Talasnal. O Xico chuta, a bola bate na trave da baliza e fica-lhe ao alcance da cabeça que a rechaça, fazendo-a entrar pelo meio das pernas do Guarda-redes. Humilhação! Porrada de criar bicho. Fim do jogo. Fim de tarde em festa no Chiqueiro. E fim de festa já tarde, na casa do Vasco, com o cinto do pai a gravar-lhe no corpo o valor dos sapatos de verniz.
Revolveu a casa à socapa até conseguir juntar uma indumentária adequada à ocasião. Os sapatos de verniz e as meias de lã até ao joelho que o pai tinha usado apenas no dia do casamento e no enterro do avô, os calções cinzentos com que tomava banho no rio no verão e que serviam de roupa interior no inverno e uma camisola de manga à cava da avó que era quem tinha mais roupa preta lá em casa.
Os de Talasnal eram mais altos, mais gordos e mais fortes e quase tão arruaceiros como os de Penela. Começa o jogo e rapidamente se transforma num festival de sarrafada, com o circo armado pelos locais, em volta do campo, a insultar tudo o que mexia. O Tó perde a bola no meio campo e o Penedos do Talasnal isola-se frente ao Vasco impotente que ainda se lhe lança aos pés, leva uma patada no estômago e fica no chão, a ver a bola passar-lhe por cima, por entre as estrelinhas prateadas que lhe pululam de todos os orifícios da cabeça.
- É pá, quem é que pôs o bala perdida na baliza? Então não sabem que o rapaz se põe um olho na bola, o outro fica a olhar para o sino da igreja?
O Vasco ouviu e fica possesso, lança-se a todas as bolas desenfreado, ora com as mãos, ora com os pés. Antes do intervalo, já o Tó empatara, com um golo de cabeça, numa bola dividida com a cabeça do adversário que seguiu para a enfermaria enquanto os colegas apelidavam o Carlos padeiro de cobras e lagartos e outros bichos com chifres. As meias do Vasco podiam ver-se, por entre as biqueiras dos sapatos, a fazer lembrar sapos de boca escancarada.
Penalty! contra o Talasnal. O Xico chuta, a bola bate na trave da baliza e fica-lhe ao alcance da cabeça que a rechaça, fazendo-a entrar pelo meio das pernas do Guarda-redes. Humilhação! Porrada de criar bicho. Fim do jogo. Fim de tarde em festa no Chiqueiro. E fim de festa já tarde, na casa do Vasco, com o cinto do pai a gravar-lhe no corpo o valor dos sapatos de verniz.
O Mundo do Vasco - II – Os caminhos da santidade
Aos12 anos Vasco já quase sabia ler – Oh vó! Aqui no livro diz : A vitela medrou até se tornar na melhor vaca leiteira da região. Que quer dizer, medrou? – Se te apanho a ler porcarias vais ver a sova que levas. - e quase sabia escrever – O Xico da marreca na gosta cu xamem assim por causa da mãe dele ter as costas tortas - mas, não era esse o facto que enchia de orgulho a sua meritíssima avó. Vasco fizera a 1ª comunhão, havia recebido o seu 1º sacramento e por isso, Oh bênção suprema! A partir do próximo domingo, seria acólito do pároco local. – Alcoólico? Mas avó, eu juro que nunca bebi nada na taberna do Tó a não ser Sumol de laranja.
O dia em que finalmente estreou os paramentos, está registado nos anais do Chiqueiro, como o da invasão da igreja, por um número nunca visto de menores de 18 anos (habitualmente, a média de idades rondava os 65). Mal tinha saído da sacristia e já o culto se transformara num arraial, com o Xico a incitar a horda a toda a espécie de impropérios. Há quem jure que o Vasco entrou com as pernas a tremer como se tivesse tido um ataque de epilepsia e saiu ainda a antes do credo, entre soluços: - Ai credo que me mijei todo.
Adquirida a rotina dos rituais e já que o hábito faz o monge, as coisas lá foram tomando um rumo susceptível de conformar os devotos.
Certo domingo, encontrou a porta da sacristia aberta, como de costume, mas lá dentro não viu ninguém. Intrigado, ousou entrar na sala que o pároco usava para se ornamentar. Viu, ai se viu, a gaveta aberta do móvel dos paramentos, lá dentro a cabeça da dona Amélia, no tampo as mãos da dona Amélia e o pároco na dona Amélia. O pároco na dona Amélia. Ao ranger da porta, viu o pároco a descer as vestes e a dona Amélia a subir a cinta. – Vasquinho, os castigos do corpo purificam a alma. Disse o pároco passando-lhe a mão suada pelos cabelos.
O dia em que finalmente estreou os paramentos, está registado nos anais do Chiqueiro, como o da invasão da igreja, por um número nunca visto de menores de 18 anos (habitualmente, a média de idades rondava os 65). Mal tinha saído da sacristia e já o culto se transformara num arraial, com o Xico a incitar a horda a toda a espécie de impropérios. Há quem jure que o Vasco entrou com as pernas a tremer como se tivesse tido um ataque de epilepsia e saiu ainda a antes do credo, entre soluços: - Ai credo que me mijei todo.
Adquirida a rotina dos rituais e já que o hábito faz o monge, as coisas lá foram tomando um rumo susceptível de conformar os devotos.
Certo domingo, encontrou a porta da sacristia aberta, como de costume, mas lá dentro não viu ninguém. Intrigado, ousou entrar na sala que o pároco usava para se ornamentar. Viu, ai se viu, a gaveta aberta do móvel dos paramentos, lá dentro a cabeça da dona Amélia, no tampo as mãos da dona Amélia e o pároco na dona Amélia. O pároco na dona Amélia. Ao ranger da porta, viu o pároco a descer as vestes e a dona Amélia a subir a cinta. – Vasquinho, os castigos do corpo purificam a alma. Disse o pároco passando-lhe a mão suada pelos cabelos.
O Mundo do Vasco - I - O Chiqueiro
Vasco nasceu no Chiqueiro, perto da Lousã. Mau prenúncio, está bom de ver. Na casa emersa na paisagem escura da cor do xisto. Tosca, o xisto nas paredes e a lousa no telhado. Acompanha o declive do terreno e por isso, tem dois pisos. A loja, no rés-do-chão destinada aos animais e a habitação no andar de cima. Assim, mantinham a casa aquecida no Inverno já que o calor imanado pelos animais aquecia também os seus donos. As portas baixas e janelas minúsculas ajudavam na tarefa pois as reduzidas dimensões dessas aberturas não deixavam escapar o calor. Teve a avó por parteira. - Mais tarde saberia que aquela careta, sua primeira visão do mundo, era uma marca indelével no seu destino. - O pai, regressara do Ultramar havia seis meses e tanta prematuridade não favoreceu a relação entre os dois.
Fez-se loiro e bem apessoado embora um pouco estrábico – Olha p’ra mim quando falo contigo rapaz ou levas uma cachaporra! - E ele sempre com um olho na cara do pai e outro nos vales profundos da serra.
Saía com as vacas manhã cedo todo o santo dia, ia à missa todos os dias santos e à escola nos dias bissextos.
Vasco o bala perdida (chalaça com que o gentio se divertia a fazer referência ao facto de o pai estar na guerra 9 meses antes do nascimento), correu a infância pelas matas em redor das aldeias de xisto que constituíam todo o seu mundo conhecido, na companhia do Xico da marreca (graças às mãe), do Tó da taberna (graças ao pai) e do Vitalino zarolho (graças a uma vareta de guarda-chuva disparada por um arco artesanal numa batalha com os de Penela, aldeia cujos nativos o leitor facilmente adivinhará como eram conhecidos).
(Siga O Mundo do Vasco todas as Segundas, Quartas e Sextas num Blogue perto de si.)
Fez-se loiro e bem apessoado embora um pouco estrábico – Olha p’ra mim quando falo contigo rapaz ou levas uma cachaporra! - E ele sempre com um olho na cara do pai e outro nos vales profundos da serra.
Saía com as vacas manhã cedo todo o santo dia, ia à missa todos os dias santos e à escola nos dias bissextos.
Vasco o bala perdida (chalaça com que o gentio se divertia a fazer referência ao facto de o pai estar na guerra 9 meses antes do nascimento), correu a infância pelas matas em redor das aldeias de xisto que constituíam todo o seu mundo conhecido, na companhia do Xico da marreca (graças às mãe), do Tó da taberna (graças ao pai) e do Vitalino zarolho (graças a uma vareta de guarda-chuva disparada por um arco artesanal numa batalha com os de Penela, aldeia cujos nativos o leitor facilmente adivinhará como eram conhecidos).
(Siga O Mundo do Vasco todas as Segundas, Quartas e Sextas num Blogue perto de si.)
Última Ceia
«Oh Zé chega aqui». «Que é?».«Tamos no jornal pá».«Olha, é o restaurante, atão? Que é que os gajos dizem?». «É sobre aquele casal que costumava almoçar na mesa 6, lembras-te?». «Sim, aqueles namorados, eram simpáticos, mas sem mais nem menos deixaram de cá vir. Não me digas que se meteram n’algum’alhada?».«Atão não é que o gajo é sobrinho-neto da rainha da Suécia e tinha um caso com uma cantora do S. Carlos?!». «Que raio andava o gajo a fazer em Lisboa?».«Parece que representava umas empresas que querem fazer negócios cá em Portugal e andava a fazer contactos». «E atão? Q’é q’isso tem de mal?». «Nada, só que o tipo tinha noiva, em Londres, que parece que é uma moça que ainda tem um parentesco qualquer com a família real inglesa. Um jornalista inglês apanhou os gajos aqui em Lisboa e agora tá uma bronca dos diabos por causa destas coisas da diplomacia e o gajo teve de se ir embora». «Realmente, agora tou a ver porque é que era sempre ela que falava connosco e o gajo só sorria mas nunca dizia nada». «Olha, só te digo q’esta coisa de ser importante às vezes também é cá uma seca …».
Na manhã seguinte, a caminho do restaurante, António pára no quiosque do costume. «Bom dia, o jornal e os cigarros?». António, não tem reacção, permanece em silêncio, como se lhe faltasse o ar e os olhos lhe tivessem morrido sobre a banca dos jornais.
«Cantora do teatro S. Carlos morre na sequência de aborto clandestino».
P.S. - Desculpem mas às 15h00 não vou poder estar por cá.
(amanhã nasce o Vasco)
Na manhã seguinte, a caminho do restaurante, António pára no quiosque do costume. «Bom dia, o jornal e os cigarros?». António, não tem reacção, permanece em silêncio, como se lhe faltasse o ar e os olhos lhe tivessem morrido sobre a banca dos jornais.
«Cantora do teatro S. Carlos morre na sequência de aborto clandestino».
P.S. - Desculpem mas às 15h00 não vou poder estar por cá.
(amanhã nasce o Vasco)
Duas Estrelas
‘Alugava o quarto da mansarda todas as semanas. A dias diferentes para que não pensassem ser uma rotina. Chegava sempre depois do almoço. Sentava-se na borda da cama a olhar para janela que dava para os telhados da cidade. E ficava ali, de olhos cansados de não chorar. Depois puxava os lençóis para trás. Colocava o anel que encontrara no passeio. Que parecia quase uma aliança. Quase. Sentava-se na secretária e escrevia um poema de amor. Que deixava no balcão ao sair, juntamente com a nota de dez.’
No regresso de mais uma dessas peregrinações, sentou-se no banco de jardim a reviver, mais uma vez, cada passo daquele caminho rumo a um oásis que, não passava de uma miragem no seu deserto interior.
Na sala de embarque do aeroporto, preparava-se para ligar aos pais, a dizer que o voo partiria com duas horas de atraso, quando o telemóvel lhe escorregou da mão e se desmantelou no chão. Sob o seu olhar surpreendido, um braço surgiu a apanhar e reconstituir o aparelho: – Muito obrigado. – De nada. Amesterdão? – Sim. Mas está atrasado. – Eu sei. Também vou. Sentaram-se lado a lado numa posição de onde avistavam o placard que anunciava a situação de cada voo. – Então? Umas férias? – Não. Estou a fazer um doutoramento em história da arte e preciso de fazer alguma investigação sobre os pintores pós-impressionistas, Cézanne, Gaugin, Van Gogh…. E Você?. – Um programa certamente menos interessante, sou oftalmologista, vou a um congresso sobre novos métodos de tratamento do estigmatismo. Embarcaram finalmente. À chegada reencontraram-se, talvez de forma não totalmente ocasional. – Amanhã, temos a tarde livre. Podia mostrar-me o museu Van Gogh que, já conheço e adoro mas, nunca o visitei através dos olhos de um especialista. – Ok. Duas e meia à porta? – Combinado.
Após a visita ao museu decidiram prolongar a estadia até ao fim de semana. Durante o passeio de barco, através dos canais que fendem a cidade, partilharam o prazer desta e de outras viagens. Passearam de bicicleta, partilhando o prazer da descoberta de novas gentes e de lugares bonitos. E na noite que antecedeu o regresso, partilharam, pela primeira vez, o prazer dos corpos sôfregos de desejo.
Abriram contas de email cujo único propósito seria manterem o contacto. Retomada a rotina, iniciaram os encontros na estalagem discreta, situada no cimo de uma das colinas da cidade, como se tivessem decidido que aquela intimidade deveria permanecer clandestina ou então, porque essa clandestinidade era o condimento secreto que tornava irresistível a degustação daquela intimidade.
À noite, invariavelmente, trocavam emails, em longas conversas sob todos os pretextos imagináveis. E nessas conversas, pontualmente, sem cadência certa, um deles escrevia: - Amanhã às 14 no nosso quarto. E passou-se mais de um ano, entre as confidências escritas e os encontros em que se possuíam despudoradamente, retomando em seguida o rumo das suas vidas paralelas.
Um dia, à entrada da estalagem, encontrou um anel que logo reconheceu como sendo aquele que vivia pendente, no fio em torno do pescoço que tanto ansiava por voltar a acariciar. Guardou o anel, entrou e esperou, e ninguém compareceu ao encontro nesse dia, nem nos dias seguintes, nem nunca mais.
Porque nunca lhe havia perguntado o nome nem nunca lhe tinha dito o seu? Porque nunca lhe tinha perguntado se tinha família, onde vivia, um número de telefone, nem lhe tinha dado essas mesmas informações?
Esta noite, mandaria um novo email, na certeza de não obter resposta. Amanhã, compareceria a um novo encontro em que não haveria ninguém para encontrar, numa profissão de fé idêntica à de quem, mantém a vela acesa aos pés da santa cuja existência jamais poderá constatar.
À CNS com amizade
No regresso de mais uma dessas peregrinações, sentou-se no banco de jardim a reviver, mais uma vez, cada passo daquele caminho rumo a um oásis que, não passava de uma miragem no seu deserto interior.
Na sala de embarque do aeroporto, preparava-se para ligar aos pais, a dizer que o voo partiria com duas horas de atraso, quando o telemóvel lhe escorregou da mão e se desmantelou no chão. Sob o seu olhar surpreendido, um braço surgiu a apanhar e reconstituir o aparelho: – Muito obrigado. – De nada. Amesterdão? – Sim. Mas está atrasado. – Eu sei. Também vou. Sentaram-se lado a lado numa posição de onde avistavam o placard que anunciava a situação de cada voo. – Então? Umas férias? – Não. Estou a fazer um doutoramento em história da arte e preciso de fazer alguma investigação sobre os pintores pós-impressionistas, Cézanne, Gaugin, Van Gogh…. E Você?. – Um programa certamente menos interessante, sou oftalmologista, vou a um congresso sobre novos métodos de tratamento do estigmatismo. Embarcaram finalmente. À chegada reencontraram-se, talvez de forma não totalmente ocasional. – Amanhã, temos a tarde livre. Podia mostrar-me o museu Van Gogh que, já conheço e adoro mas, nunca o visitei através dos olhos de um especialista. – Ok. Duas e meia à porta? – Combinado.
Após a visita ao museu decidiram prolongar a estadia até ao fim de semana. Durante o passeio de barco, através dos canais que fendem a cidade, partilharam o prazer desta e de outras viagens. Passearam de bicicleta, partilhando o prazer da descoberta de novas gentes e de lugares bonitos. E na noite que antecedeu o regresso, partilharam, pela primeira vez, o prazer dos corpos sôfregos de desejo.
Abriram contas de email cujo único propósito seria manterem o contacto. Retomada a rotina, iniciaram os encontros na estalagem discreta, situada no cimo de uma das colinas da cidade, como se tivessem decidido que aquela intimidade deveria permanecer clandestina ou então, porque essa clandestinidade era o condimento secreto que tornava irresistível a degustação daquela intimidade.
À noite, invariavelmente, trocavam emails, em longas conversas sob todos os pretextos imagináveis. E nessas conversas, pontualmente, sem cadência certa, um deles escrevia: - Amanhã às 14 no nosso quarto. E passou-se mais de um ano, entre as confidências escritas e os encontros em que se possuíam despudoradamente, retomando em seguida o rumo das suas vidas paralelas.
Um dia, à entrada da estalagem, encontrou um anel que logo reconheceu como sendo aquele que vivia pendente, no fio em torno do pescoço que tanto ansiava por voltar a acariciar. Guardou o anel, entrou e esperou, e ninguém compareceu ao encontro nesse dia, nem nos dias seguintes, nem nunca mais.
Porque nunca lhe havia perguntado o nome nem nunca lhe tinha dito o seu? Porque nunca lhe tinha perguntado se tinha família, onde vivia, um número de telefone, nem lhe tinha dado essas mesmas informações?
Esta noite, mandaria um novo email, na certeza de não obter resposta. Amanhã, compareceria a um novo encontro em que não haveria ninguém para encontrar, numa profissão de fé idêntica à de quem, mantém a vela acesa aos pés da santa cuja existência jamais poderá constatar.
À CNS com amizade
Cata-Vento (a partir de um texto de Isabel Jacob)
O - Vento Quente - traz-me à memória os verões onde morámos. O - Vento Forte - vareja-me de odores da terra que desabitámos. O - Vento Húmido - sobre o mar, crispando as ondas, arrasta-me em marés ora vazias ora cheias de nós. O - Vento Obreiro - nas pás dos moinhos, das noras e nas velas dos barcos, leva-me de volta ao rio tantas vezes testemunha dos nossos corpos espreguiçados sobre a relva. O -Vento Contra – (e a vida toda a nosso favor) a entrar pelo tejadilho do carro e a tornar os teus cabelos num imenso véu.
O vento que faz sempre aqui, sobre esta laje, onde me obrigas a regressar sempre que o vento pára dentro de mim e me custa a respirar. – Pronto! Aqui tens o nosso tesouro. Hoje juntei-lhe um novo e derradeiro frasquinho. Na etiqueta escrevi, - Vento Interior - e dentro coloquei-lhe o meu último sopro. Até já meu amor.
O vento que faz sempre aqui, sobre esta laje, onde me obrigas a regressar sempre que o vento pára dentro de mim e me custa a respirar. – Pronto! Aqui tens o nosso tesouro. Hoje juntei-lhe um novo e derradeiro frasquinho. Na etiqueta escrevi, - Vento Interior - e dentro coloquei-lhe o meu último sopro. Até já meu amor.
Cidade Grande
Era uma vez três velhos; A casa, a velha e o cão. A casa, jaz, morna e seca, tortura a velha e ameaça o cão. A velha, jaz, curvada ao passado e despida de futuro, dói-lhe a casa enquanto afaga o cão. O cão, jaz, cego e trôpego, entretido pelos sons da voz da velha e da velhice da casa.
A casa ostenta as memórias empoeiradas da velha e o cheiro do cão. A velha murmura infinitamente ao cão as histórias de cada destroço da alma e da casa. O cão suspira cansado da voz da velha e do ranger da casa.
A velha pensa: Se cai a casa onde vou morar com o meu cão? Se morre o cão com quem hei-de conversar?. O cão pensa: Se cai a casa morro eu e a velha, se morre a velha morro sozinho em casa, se saio de casa onde vou cego e sozinho?. A casa não pensa.
O cão deita-se aos pés da velha que murmura a história da casa prestes a desabar. Era uma vez três velhos à espera que o tempo passe, esgote o passado, e o presente teimosamente adiado finalmente aconteça. Nesse dia, sobre os despojos da casa, o corpo da velha e os restos do cão talvez haja visitas. Nem que seja a do senhorio dando graças por finalmente poder vender o terreno onde antes havia uma casa, a da vizinha que sempre se interrogou sobre quem moraria ali, mas nunca visitou a velha, ou simplesmente, a do funcionário da câmara para remover os restos do cão.
A casa ostenta as memórias empoeiradas da velha e o cheiro do cão. A velha murmura infinitamente ao cão as histórias de cada destroço da alma e da casa. O cão suspira cansado da voz da velha e do ranger da casa.
A velha pensa: Se cai a casa onde vou morar com o meu cão? Se morre o cão com quem hei-de conversar?. O cão pensa: Se cai a casa morro eu e a velha, se morre a velha morro sozinho em casa, se saio de casa onde vou cego e sozinho?. A casa não pensa.
O cão deita-se aos pés da velha que murmura a história da casa prestes a desabar. Era uma vez três velhos à espera que o tempo passe, esgote o passado, e o presente teimosamente adiado finalmente aconteça. Nesse dia, sobre os despojos da casa, o corpo da velha e os restos do cão talvez haja visitas. Nem que seja a do senhorio dando graças por finalmente poder vender o terreno onde antes havia uma casa, a da vizinha que sempre se interrogou sobre quem moraria ali, mas nunca visitou a velha, ou simplesmente, a do funcionário da câmara para remover os restos do cão.
SAUDADE
Era Outono. Não sei onde era Outono. Passavas por mim, não sei se sem me ver se simplesmente sem me olhar e desaparecias na dobra do caminho. Vejo-me a falar de ti com quem passa por mim e me dá um pouco mais que esse silêncio crescente dos teus passos a afastarem-se. Sigo. A cada esquina vencida vejo-te. Estás linda (és linda) mas trajas um olhar triste que te ensombra o rosto. Não sei nada de ti a não ser a tua falta. Acordo com os olhos fixos no teto branco. Suo. O sol que rasga o vidro da janela, torra o ar do quarto. Para lá da janela é Verão. Outono é o lugar onde me perdi de ti. Tenho pressa que anoiteça.
O CAIS
No cais conheci a morte. Os seus rituais. O peso do seu vazio esmagador. Naquela manhã havia um nevoeiro intenso sobre o rio e tempestade no mar. O cais ia-se enchendo de gente trajada de um negro contrastante com a ansiedade pela chegada do navio. Um homem atravessa a multidão aos gritos e anuncia. – O mau tempo não permite que se aproximem da barra, vão ficar ao largo até o tempo melhorar, talvez amanhã, podem ir para casa não vale a pena ficarem aqui -. A horda anuiu e dispersou. Na manhã seguinte quando cheguei ao cais lá estava ela, a morte em todo o seu esplendor. Uma vaga de mar virara o barco, ali, a pouco mais de uma milha do cais. A fúria das ondas e o nevoeiro, haviam impedido as operações de salvamento. Nas horas que se seguiram a maioria dos homens desapareceu, ali, quase aos pés de quem os esperava há tanto tempo. – Ai ! o meu querido filho ! Ai ! o meu homem ! Ai ! meus filhos que vai ser de nós! Aiiii ....
E eu estarrecido tentando subtrair-me à tragédia. Lembro-me da boca seca, as costelas a comprimirem os pulmões e o coração até à asfixia, um silvo a trespassar a cabeça por entre os gritos à minha volta e a morte ali exibindo a sua coreografia apoteótica e apocalíptica.
Nos dias seguintes o cais estava deserto. Apenas coroas de flores a boiar no rio. O regresso à rotina fez-se de sombras no lugar de homens, até o intenso nevoeiro das almas se dissipar.
E eu estarrecido tentando subtrair-me à tragédia. Lembro-me da boca seca, as costelas a comprimirem os pulmões e o coração até à asfixia, um silvo a trespassar a cabeça por entre os gritos à minha volta e a morte ali exibindo a sua coreografia apoteótica e apocalíptica.
Nos dias seguintes o cais estava deserto. Apenas coroas de flores a boiar no rio. O regresso à rotina fez-se de sombras no lugar de homens, até o intenso nevoeiro das almas se dissipar.
Sopa da Pedra
A avó ferveu-lhe a sopa
A sopa queimou-lhe a boca
A boca injuriou
O pai bateu-lhe na boca
Ele entornou a sopa
E já ninguém jantou
A sopa queimou-lhe a boca
A boca injuriou
O pai bateu-lhe na boca
Ele entornou a sopa
E já ninguém jantou
Reflex(ã)o
Torno para contar
Estive ausente
Aparentemente
Precisava de pensar
Pensei tanto
Tão devagar
E no entanto
Precisava de falar
Escureci os sentidos
Apaguei a identidade
Em busca da verdade
E de sonhos perdidos
E vi tudo com a clareza
De um álbum de fotografias
A alegria e a tristeza
Perdidas na pressa dos dias
Cuidadosamente
Sem luz, som, cor ou companhia
Eu e mim em sintonia
Simplesmente
Como é surpreendente
Este Eu revisitado
Este Eu permanente
Este Eu despojado
Revisitei-me pormenorizadamente
Tempo, espaço e circunstância
Sem imaginar a distância
Entre o Eu gente e o mim realmente
Conversámos longamente
O Ser etéreo e o Ser consciente
Numa viagem incontinente
Reinventando tudo diversamente
Ou não, não foi reinvenção
É a verdade que é diferente
Quando alternadamente
Nos brota da cabeça ou do coração
Ser único, inteiro
Em vez de vulto indistinto
Ser o eu verdadeiro
Ser quem sou e o que sinto
Sei agora, apenas quando
as folhas dos dias já caíram
Não foram as coisas que fugiram
Mas eu quem não as fui cuidando
Estive ausente
Aparentemente
Precisava de pensar
Pensei tanto
Tão devagar
E no entanto
Precisava de falar
Escureci os sentidos
Apaguei a identidade
Em busca da verdade
E de sonhos perdidos
E vi tudo com a clareza
De um álbum de fotografias
A alegria e a tristeza
Perdidas na pressa dos dias
Cuidadosamente
Sem luz, som, cor ou companhia
Eu e mim em sintonia
Simplesmente
Como é surpreendente
Este Eu revisitado
Este Eu permanente
Este Eu despojado
Revisitei-me pormenorizadamente
Tempo, espaço e circunstância
Sem imaginar a distância
Entre o Eu gente e o mim realmente
Conversámos longamente
O Ser etéreo e o Ser consciente
Numa viagem incontinente
Reinventando tudo diversamente
Ou não, não foi reinvenção
É a verdade que é diferente
Quando alternadamente
Nos brota da cabeça ou do coração
Ser único, inteiro
Em vez de vulto indistinto
Ser o eu verdadeiro
Ser quem sou e o que sinto
Sei agora, apenas quando
as folhas dos dias já caíram
Não foram as coisas que fugiram
Mas eu quem não as fui cuidando
GREVE
Hoje não escrevo. Inicio uma greve de fome de palavras. Não quero morar sózinho num sítio deserto de sonhos. Onde foram todos, aqueles que comigo iniciaram esta viagem ? Porque murcham as flores deste jardim de intenções a cada dia que passa dando lugar a um cemitério de ideias ? porque baixámos as canetas e os teclados numa abominável rendição ? Não foi esta a revolução com que sonhei. Haverá ainda por aí, alguém capaz de manter a chama acesa ? A menos que uma vaga de fundo faça renascer a esperança, deixarei secar as palavras até restar apenas um abenegado silêncio.
AUTO DE FÉ
Façamos aqui mais uma pausa para uma daquelas coisas que gostaria de, em algum momento, ter conversado contigo : - Deus ! É para mim um conceito tão destituído de sentido que tenho uma sincera incapacidade de reflectir sobre isso. – ajuda-me! - que sentido tem este conceito, esta ideia de omnipotência ? olha à nossa volta, será possível sermos filhos de um Deus tão incompetente que permitisse que o mundo se tornasse nisto ? sim, já sei que nos concedeu o livre arbítrio e nós é que destruímos o mundo, e ele limitou-se assistir sentado no seu sofá celestial, ora porra! - E no entanto, deve ser tão confortável ter fé. A fé para os adultos é assim como o Pai Natal para as crianças; Depositamos numa entidade fictícia a faculdade de realizar os nossos desejos e acreditamos que pontualmente haveremos de ter lugar na sua preenchida agenda e seremos dignos das suas bênçãos e entretanto, morremos de fome, de doenças, matamo-nos uns aos outros, somos devassados por catástrofes naturais, ambientais e outras mais e nada disto faz sentido.
Folhas soltas de um diário inexistente (I I)
Eu e ela, por diferentes razões, fomos sempre seres destituídos de liberdade, sempre fomos escravos acorrentados às grilhetas dos nossos enganos, dos nossos erros, dos nossos equívocos, das nossas verdades. Nunca desenvolvemos as capacidades necessárias à ‘liberdade de aquiescência’ enunciada por Adriano nas suas memórias descritas por Marguerite Yourcenar (... dispondo-me a considerar um exercício útil os meus anos de dependência, a minha sujeição perdia o que tinha de amargo ou mesmo de indigno. Escolhia o que tinha, obrigando-me apenas a tê-lo totalmente e a apreciá-lo o melhor possível. ...) e assim, sem essa capacidade de escolher o que tínhamos, e de lhe atribuir um valor estimável, nunca fomos capazes de nos aceitar um ao outro nem a nós próprios.
Folhas soltas de um diário inexistente ( I )
(....vejo-o definhar a cada dia que passa e quando no outro dia, não pôde ocultar que a doença o traía e se consumia em tremores horrendos e dolorosos, ali na minha frente, senti medo. Sim é verdade, não perdeu essa eterna serenidade com que ilude a própria vida, limitando-se a um breve – Lá está esta merda outra vez -, como se fosse normal o sarcástico encurtar dos espaços entre a última, esta e a próxima vez. Respeito-o, por isso aceito o pacto de silêncio que me propõe e ali ficamos como sempre a comentar a vida dos outros, como se de um jogo se tratasse. Vejo-o partir e já faço planos para o próximo telefonema, para o próximo encontro. Perco-me em devaneios sobre o que quero dizer-lhe, o que vou realmente dizer-lhe, o que deveria ter-lhe dito mas não me lembrei, não fui capaz ou simplesmente achei que não valeria a pena. Ao vê-lo partir, apenas conservo uma constante no pensamento: - Amanhã, quando, como em todas as manhãs, me cansar de contar o tempo, vou telefonar, e aí, por favor, promete que vais lá estar, nem que seja só para isso mesmo, para me dizeres que ainda estás lá.)
Olhos (leituras do teu silêncio)
Mapas de até aqui
Núncios do tempo interior
Farol do meu porto
Núncios do tempo interior
Farol do meu porto
PELE (contemplação da tua nudez)
Deserto virginal
Pomar de Damascos
Firmamento
Deleite ímpio
Leito de Eros
Melíflua seiva
Pomar de Damascos
Firmamento
Deleite ímpio
Leito de Eros
Melíflua seiva
RUMO A TI
Circum-navego-te
Voluptuosamente
Em cada porto do teu corpo
Enfeito-me de relíquias prenhes de ti.
Voluptuosamente
Em cada porto do teu corpo
Enfeito-me de relíquias prenhes de ti.
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