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Arte menor.

No caminho para o cinema. Que filme vamos ver afinal? O último drama, sem dúvida. Queremos chorar ou pensar até sair fumo. Queremos desafios emocionais ou intelectuais ou uma pitada de ambos. Assim somos os maiores. Já podemos participar nas conversas dos adultos. De óculos na ponta do nariz e risos estudados. Até podemos afirmar que as nossas ideologias quase roçam o comunismo.
Os trombudos. Abominam revistas cor-de-rosa. Nunca viram uma novela. Não conhecem o Stiffmeister. São capazes de esboçar um sorriso com o Ricardo Araújo Pereira. Ao de leve. Porque o intelecto é demasiado rigoroso para se render à estupidez.
Ao longe as crianças perguntam: " Onde nascem as pessoas que não sabem rir?"
Aquela sensação explosiva de se ter uma praia sozinha, sem um único olhar que nos condene. A vontade de gritar. A vontade de dançar. A vontade de correr sem disciplina. Abrir os braços e suspirar bem fundo. O mundo é meu. Este céu. Este mar. Este cheira a mar. Em estado puro sem lapidações. Sem prisões nem amarras. A certeza que sou livre. Que as sombras que passeiam no meu corpo só lá estão porque eu quero. Porque a minha natureza é inteira com o mar e o céu e o sol.
Tenho a máquina a lavar a roupa. Tenho a máquina a sujar a cabeça. Tenho a mão aberta em cima do ombro. Tenho o pé enterrado na areia. Tenho o ponto de interrogação na cadeira. Tenho a certeza na almofada. Tenho o calor no peito. Tenho o frio nos dedos. Tenho a visão cansada. Tenho a alma em viagem.
Não escrevo há mais de um mês. Crise de ausência criativa. O receio espaçoso de deixar palavras por escrever. Reservo diariamente. Escrevo quando me apetece. Nem sempre me apetece. Tenho sono quando as palavras surgem desordeiras na minha língua. Falo o que quero escrever. Depois esqueço-me ou deixa de me apetecer. Sou preguiçosa, indisciplinada e sem mais adjectivos. Arrepia-me o acordo ortográfico. Duvido das minhas frases. Gosto das mesmas coisas. Escrevo as mesmas coisas. Amanhã talvez escreva mas acho que hoje não me apetece.

Café do Manuel


Muita tinta tem corrido sobre este nosso país à beira mar plantado. Passamos por lugares comuns a grandes teorias da conspiração. Tudo em busca de um motivo que justifique um caminho feito de olhos baixos.
Na mesa do café do Manuel especula-se sobre tudo. Culpa-se o fado e os seus trejeitos sempre iguais. A voz que se lamenta e a guitarra chorosa. Está-nos no sangue a saudade dos que se foram no mar, dos tempos áureos do Benfica e da grandeza dos descobrimentos. Na mesa do café do Manuel culpa-se o governo eleito democraticamente por poucos pois os outros estavam ocupados a jogar matraquilhos no café do Manuel. Se chove a culpa é do governo. Se o sol brilha a culpa é inevitavelmente do governo. Que andam todos ao mesmo. Na mesa do café do Manuel folheia-se o jornal já gasto pelos comentários que não chegam ao céu. Culpa-se a falta de formação de um povo desempregado. Na mesa do café do Manuel aplaude-se o Tozé que conduzia depois de ter bebido uma garrafa de bagaço em menos de meia hora. Rapaz de coragem. Sai ao paizinho. Na mesa do café do Manuel valoriza-se o lançamento da beata. O mais longe possível. Longe do olhar para não interromper a apatia e a falta de vontade. Na mesa do café do Manuel, só há lugar para a resignação que divide a bica com a vítima da sociedade. Depois de tanta especulação, o Chico Esperto continua sem razão para o nosso fado. Temos praia, caracóis, futebol e vinho. O sol aquece-nos as costas durante quase todo o ano mas negligencia o que se mantém apenas morno. Aquilo que permanece intacto, que não muda nem quebra. O culpado ou o causador dos obstáculos. O olhar no chão.
Tenho lembranças vagas de formas que costumavam brindar-me aos fins-de-semana. Hoje se as tento sentir, arrepio-me de indiferença. Em ti o antes foi feito rascunho. Falso conforto na procura da obra perfeita. Em ti o coração repousa com a calma de um bicho dorminhoco. O cérebro é certo e quando se lembra todo o corpo estranha. O antes de ti é vapor. Não havia realidade. Era tudo fácil e ridículo. Em ti encontrei a dificuldade e o prazer do caminho. Sempre na nossa direcção.
É bom não ter nome junto de quem nos aquece a mente. Num cenário sem duas de mão, é puro conforto saber que existe ainda quem assista de brilhos nos olhos ao espetáculo do dar sentido ao vazio. Com a devida vénia no meu primeiro passo.