Silêncio
O estômago revolve com as emoções. Preciso de calar.
Calar o silêncio.
Questiono-me quem ouviria o meu berro. Tranquilizo-me ao ouvir os dos vizinhos. Se os ouço a eles, eles a mim me ouvem.
Levo as mãos aos ouvidos. Silêncio.
Mantenho os olhos fechados e debruço-me nas quinas da vida.
Relembro emoções. Falo com o coração. Choro ou rio, por quases e por tudos.
O cenário mantém-se. Cara branca, olhos cerrados e mãos que evitam sons.
Perfeito.
Agora já só faltas tu.
Cidade dos Anjos
Não vos consigo sentir. Não é falta de sensibilidade, apenas não vos consigo sentir. Tocar, cheirar, acariciar. Não consigo.
Existo paralelamente à vossa vida. Não estou morto, apenas não vivo humanamente.
Vivo nos pensamentos, nas bibliotecas e a cada pôr-do-sol encontramo-nos na praia. Nós, os da minha espécie. Adoramos ouvir o sol, os acordes ao despedir-se de mais um dia.
No meu trabalho guio quem vos deixa. Na morte, essa palavra que, para vocês, é fria. Mas nós não sentimos o frio. Na realidade a morte é só o início de outra vida. Uma vida como a minha. Não humana.
Enquanto vos guio na nova estrada, atrevo-me sempre a perguntar o que mais gostaram. Aponto no meu livro cheio de coisas boas.
Foi numa dessas situações que te encontrei. Enquanto esperava que uma vida se desvanecesse do vosso lado e começasse do meu. Olhaste-me nos olhos e contrariaste-me. Parecia que me conseguias ver. Como se fosse possível tocares-me. Como se pudesses alterar destinos.
O destino manteve-se. E eu não me consegui afastar.
Deixei-te ver-me, conhecer-me. Mas nunca tocar-me. Só porque não vos consigo sentir.
Quando percebeste que não existia dor para mim, continuaste a não acreditar em anjos.
Não acreditavas em anjos, mas apaixonaste-te por um.
Ele, que não deixa nada ao acaso, deu-nos algo em comum – a vontade própria. O livre arbítrio. A mudança.
E eu queria mudar. Por ti atirei-me. Caí. Acordei humano.
Fomos felizes. Por uma noite sentimo-nos.
Absorvi cada toque, cada cheiro, todas as emoções. Fomos felizes.
Demasiado depressa aprendi a chorar. Finalmente percebi porque as lágrimas caíam.
Olhaste para mim uma última vez. Acariciaste-me uma última vez.
Quando te perguntaram o que tinhas gostado mais, disseste o meu nome – Seth.
Perguntam-me se valeu a pena. Apenas por um toque teu. Por um cheiro teu apenas.
Sim, valeu.
Silêncio, Câmara.... Escrevam!
Como estava pouco inspirada, pedi ajuda à Cristina para este desafio. Claro que ela teve uma ideia brilhante:
- Escrever um texto sobre " o filme da minha vida"
Toca a trabalhar nas sequelas. :)
Jocas
Caminhos Alternativos
Estou a pôr a primeira e a fazer o ponto de situação.
Já estou em movimento. Porque as vidas que são rosa no verde não estagnam. Avançam. Já poucos se conformam com o preto no branco. Espero eu!
Ando a ver as pedras no meu caminho e não as apanho. Dou-lhes pontapés. Assim fico sem material e o meu castelo não passa de pedras soltas.
Que este texto sirva de argamassa. As mangas estão arregaçadas e é Verão. Já passei a primeira lomba. A auto-estrada avizinha-se. Buzinemos em uníssono.
O Meu Gato - Mote Um - Take 2
Descontente, dei as boas vindas ao Tico e ao Teco, os peixinhos dourados que substituíam o meu gato independente. Não gostei, não podia dar-lhes festinhas. Só tinha piada quando vinham buscar a comida. Quando podíamos contemplar o interior das bocas. E eu dava comida. E dava mais. E continuava a dar.
Morreram passados 2 dias.
Mas também não era meus. Não os queria. Queria um gato.
Vieram a Tuga, a Tuguíssima e a Tuga, a Terceira. Exactamente nesta ordem. A primeira foi vítima do pé nº 38 da mulher-a-dias. Ela é que a pisou e eu é que levei um raspanete por deixar a tartaruga passear pela casa. Só queria deixá-la fazer um pouco de exercício. Estava sempre encurralada no aquário.
Mas não me importei. Não era minha. Eu queria um gato.
A segunda atirou-se do aquário (mistério que ainda persiste), logo no dia em que eu o deixei no parapeito para apanhar sol. Se vivêssemos no rés do chão, tínhamos evitado a poça verde no quintal da vizinha. Aliás, se fosse um gato tinha caído direito no chão, sem mazelas. Amuei quando tive de ir limpar os resíduos viscosos. Ela nem era minha.
A terceira hibernou durante ano e meio e a mãe decidiu atirá-la pela pia. Ainda hoje acho que havia uma hipótese de ser apenas um longo período de hibernação. Mas também não disse nada. Não me interessava.
- Quando tiveres a tua casa, escolhes o animal que quiseres. – diziam-me constantemente. E assim esperei. Passei da infância para a puberdade. Entrei no curso técnico para assistente de consultórios dentários. E comecei a trabalhar com a Dra. Jossara Violão.
Estava contente. Parecia ter escolhido a profissão certa. No início escolhi o curso por me parecer um bom sítio para trabalhar. Onde as pessoas pouco podiam reclamar, por estarem sempre de boca aberta. E até se ganhava bem.
Mas agora transportava-me um pouco à minha infância. Sorria por debaixo da máscara, sempre que me lembrava do Tico e do Teco. E tinha de combater a vontade de atirar comida para dentro das bocas dos pacientes.
Fui poupando e finalmente comprei uma casa só para mim. Era minha. Agora sim queria e tinha escolha própria. Já ninguém me proibia de nada. Fui ao shopping e comprei um gato. Era preto, com olhos verdes e um sorriso nos lábios. Era meu. E não importava se era apenas uma imagem estampada num porta-chaves. Era um gato e era independente. Tal como eu!
Ana Rosa - Roxanne
O creme hidratava o ar do quarto com cheiro a baunilha.
Ana Rosa esticava delicadamente as meias de rede. Pretas com brilhantes. De perna erguida, sentada na cama recordava – os faróis dos clientes que acendiam as lantejoulas e o desejo. No fundo até gostava da atenção.
As suas pernas esguias faziam sucesso todas as noites.
Entretia-se a escolher o batom que melhor combinava com a cor do seu vestido
“You don’t have to wear that dress tonight”
Ele não conseguia compreender. Uma mulher tem de fazer pela vida. Não conseguia aceitar a ideia de viver às custas de um homem. E arranjar um emprego medíocre a ganhar pouco, não era para ela. Era ambiciosa. Gostava de ir às compras na Avenida da Liberdade. Dos produtos de beleza. No fundo até gostava da atenção.
Dos olhares que a seguiam.
“So put away your makeup”
A sua mãe sempre lhe tinha dito – o que é bom é para se ver – e ela cumpria. Todas a noites mostrava o que tinha de melhor. E até gostava da atenção.
“I won't share you with another boy”
Mas para ele não. Não a queria partilhar. Logo ela, que era de ninguém.
Vinha com a conversa do Amor. – Amor? O que é isso? – Ana Rosa acedia-lhe ao pedido. Olhava-o nos olhos – no fundo, no fundinho – mas só via a auréola preta. Não via o Amor, nem Alma. Só preto. E o olhar dele seguia-a. Ela gostava, especialmente da atenção.
"You don't have to put on the red light”
Calçava as botas de salto. Estava pronta para mais uma noite de trabalho. Ou diversão. Tudo dependia da perspectiva. Já o tentara explicar-lhe, mas ele não ouvia. Não queria saber.
“You don't have to sell you body to the night”
Ana Rosa no fundo só gostava da atenção.
Desafio Cantado
Vamos a mais uma voltinha de Desafios?
Desta vez, aproveito a deixa da Cristina, e proponho:
- Escolher uma música ao vosso gosto e inseri-la num texto.
Se não quiserem inserir partes da música, pode ser somente um texto inspirado na letra ou só na melodia. Deixo ao vosso critério.
Prazo - até 5ª feira pelas 16h.
:*
entre uma sopa e um bife - continuação
No mesmo restaurante
Num enamoramento pegado, quase com medo que o dia acabasse
(ou seria o almoço?)
Enquanto uns comiam sopa,
E outros cortavam bife
Eles tinham medo que o dia acabasse.
Ou o almoço acabasse.
e não houvesse mais alimento para aquele amor.
Aquele casal nunca falhava
Os dias da semana eram uma maratona de amor
ao almoço
Todos os almoços, todas as semanas
Mas pouco comiam
Mas nunca falhavam
Debruçavam-se em cima da mesa
Tocavam-se sem pudor de olhares alheios
e como havia olhares alheios a mirá-los
Mas pouco comiam
Mas nunca falhavam
Deixaram de aparecer. Há duas semanas, não mais
(gosto de pensar que estão de férias)
Os almoços insípidos tornam-se apimentados.
Os amantes voltaram, o espectáculo continua.
Mas pouco comem,
Mas nunca voltaram a falhar.
Entre garfadas vê-se a paixão,
Feroz e tórrida antes que o dia acabe.
Ou seria o almoço.
Olhando bem, quando se separam, um olho está negro,
Preto, roxo e com laivos de vermelho sangue.
Comentam-se estórias e criam-se boatos.
Sorve-se a sopa.
Acaba o almoço, ou seria o dia,
As marcas desaparecem,
E a paixão acalma.
Mas agora comem,
Mas nunca falham.
A lista branca do anelar bronzeia-se,
Cortam-se bifes
Para alimentar o tal Amor.
A paixão esquecida.
Os olhares já não são alheios,
O pudor pareceu regressar.
Chegaram à meta, acabaram a maratona.
Acaba o dia, ou seria o almoço.
Mas agora comem,
Mas agora falham.
Folhas de um Diário Inexistente II - Início
Tive uma infância que pode ser considerada normal. Quando dei por mim, já adolescente, debatia-me com a questão da liberdade. Parecia-me sempre estar preso. Sem possibilidade de escolher. Fui para o curso para seguir as pegadas do meu pai. Era católico sem ter escolhido sê-lo. Vestia o que me compravam. Somente ao almoço escolhia entre carne ou peixe. E se escolhesse salada saía mais caro.
A vida continuou. Depressa chegou o primeiro emprego e a escravidão diária da rotina.
Já com alguns anos de vida laboral, chegou mais um Natal. Como sempre, fomos todos convidados para a dita festa. E lá estava eu, preso, naquele mundo que não entendia. Naquele espaço, com aquelas pessoas, daquele emprego. Afastei-me. Fui para o canto mais recôndito da sala. No canto ninguém me olhava de trás. No canto estava seguro.
De relance vi a Valéria. Encostada a um canto, tão perdida quanto eu. Não me recordo de ter ido ao seu encontro. Só sei que nas horas seguintes, pela primeira vez na minha vida, socializei.Socializei com alguém tão marginalizado como eu. Partilhámos estórias e cruzes. Eu e ela estávamos presos.
Eu e ela, por diferentes razões, fomos sempre seres destituídos de liberdade, sempre fomos escravos acorrentados às grilhetas dos nossos enganos, dos nossos erros, dos nossos equívocos, das nossas verdades. Nunca desenvolvemos as capacidades necessárias à ‘liberdade de aquiescência’ enunciada por Adriano nas suas memórias descritas por Marguerite Yourcenar (... dispondo-me a considerar um exercício útil os meus anos de dependência, a minha sujeição perdia o que tinha de amargo ou mesmo de indigno. Escolhia o que tinha, obrigando-me apenas a tê-lo totalmente e a apreciá-lo o melhor possível. ...) e assim, sem essa capacidade de escolher o que tínhamos, e de lhe atribuir um valor estimável, nunca fomos capazes de nos aceitar um ao outro nem a nós próprios.
Duas Estrelas - continuação
Assim que chegava ao carro, verificava sempre o bolso interior do casaco. O alto disforme confirmava. O anel estava lá.
A rotina disfarçada permanecia. A quase aliança. A quase esperança. Os quase poemas inspirados.
Nesse dia, a neve na estrada rotineira obrigou-o a um rumo diferente. Acompanhava o rio. Parou o carro. Estava na beira da ponte. Não conseguia perceber porquê. Logo ele, que tinha vertigens. Olhou para o fluir da água e desejou fazer parte daquela força.
Encolheu-se no casaco, mas a alma não aqueceu.
Inesperadamente o seu pé escorregou. Agarrou-se com toda a força à estrutura metálica. No peito sentia um bater desenfreado. Afinal ainda não estava pronto.
Começou como um esgar nos lábios e depressa se tornou num riso nervoso e contido. Riu alto. Riu muito. Há tanto tempo que não ria. Soube-lhe bem.
O quase não era suficiente.
Deu um berro. Deu outro. Berrou até ficar sem voz. As lágrimas que esperavam há muito, saíram. Os olhos cansados tinham, finalmente, paz e liberdade.
Levou a mão ao bolso perto do coração. E atirou o último quase ao rio.
Vento da Serra II*
Desde os 2 anos que a mãe lhe falava do bem que o ar da Serra fazia. Naquelas noites de Verão, nas histórias para dormir, havia sempre uma referência ao vento .
- Quando os 3 porquinhos pensavam que não havia nada que os salvasse do lobo mau, apareceu a fada madrinha. A fada chamou a força do vento da Serra, e o lobo mau voou.
Amélia recordava essas noites. Do luar que passava pelas persianas amarelas semi cerradas. Em especial da brisa que corria, com cheiro a Verão.
Amanhã era o seu aniversário. A mãe ia levá-la à Serra . No fim de semana passado tinham ido aquela loja da cidade, onde se vendiam reliquias e velharias. Amélia tinha escolhido o frasco mais bonito da loja. Cabia na palma da mão. Transparente e com pequenas flores verdes e azuis.
Era a prenda que pedira. Ir a Serra e apanhar o vento.
Assim que saiu do carro, respirou fundo. Encheu os pulmões. Renovou os sonhos. Abriu o frasco e fechou-o o mais rápido que conseguiu.
Tinha conseguido. Com 5 anos acabados de fazer e era dona de um pedaço de vento. Tinha o mundo todo por conquistar e isto era apenas o início.
Pegou na caneta cor-de-rosa com brilhantes e escreveu no frasco – Vento da Serra – pôs na mesinha de cabeceira e ficou a olhar com um sorriso. Nessa noite adormeceu e sonhou com a festa dos 3 porquinhos e viu o lobo mau de paraquedas.
Desafio aos Bloggers deste Sítio
Tenho apenas um desafio.
Ao falar com a Cristina, cheguei à conclusão que alguns textos podem ter boas ideias, mas serem textos fracos. E sinto que o meu texto "Apanhar o Vento" retrata bem o caso.
Assim, o desafio que tenho para vós é.... reescrevam-no! :D
Peguem na ideia base e desenhem uma estória.
Espero que aceitem o desafio, pois adorava ler os vossos textos.
:*
A Fita
- Arranca. Puxa. Tira-me isto.
As lágrimas escorriam no seu rosto esguio e mulato. A amiga tentava ajudar, mas em vão .
Olga não queria mais aquela fita, com nós de promessas. Não queria nada que o recordasse. Promessas traidas.
- Com mais força. Desfaz. Tira-me isto, por favor. – Soluçava.
Já não havia esperança no verde da fita. O futuro já passara. Para avançar não podia haver recordações por perto. Seria demasiado. Doloroso.
Amanhã lembraria apenas a vontade de um último beijo. Beijo que nunca seria dado.
- Tira-me isto – continuava a dizer, enquanto a fita se soltava.
Dia de Mudança
Vou viver e mudar. Deixar de lado os pontos nos is. Vou começar a ver tudo rosa no verde e não preto no branco. Começo hoje.
Mundo Mágico
Assim que saiu do comboio já via o portão dourado. Estava lá.
Com passo apressado voltou à infância. Naqueles 2 dias foi princesa, rainha, amiga do Mickey e foi Feliz.
No afastar da carruagem, prometeu a si mesma. Voltaria.
Tarte de Maçã
Tirou o tacho de cobre. Pôs água, açúcar, canela e juntou o segredo em lume brando.
Passados alguns minutos o cheiro inundava a casa. Todos os poros se abriram para receber aquele aroma. Até as orelhas cheiravam.
Tudo fervilhava. Sentia as bochechas a arder. O calor subia e fazia-a pensar nas noites de Verão. No gelado derretido. A textura aveludada na sua boca. Os romances intermináveis que lera. Os namoros inacabados. Aquele filme onde corpos desnudados se confundiam.
Começava a cair uma gota de suor na testa, quando a campainha interrompeu os seus pensamentos.
- Chegámos. Que cheiro divinal é este?
- Entrem. Estou mesmo a acabar a tarte de maçã.
Ocuparam os lugares à volta da mesa e serviram-se. O silêncio instalou-se. Todos comiam, aliás, devoravam aquele manjar. Olhavam o prato, parecia que queriam ter a certeza que era uma simples tarte.
Começou com um suspiro. Depressa se espalhou. O calor. O Verão.
Entreolhavam-se. Os joelhos roçavam debaixo da mesa como sempre. Mas desta vez faziam faísca. Como era possível? Estariam todos a sentir o mesmo?
Alguém se levantou, arranjando uma desculpa para sair mais cedo. Seguido de outro. E outro. Todos saíram.
Dessa tarde, nunca chegaram a falar. A única lembrança que permanece está pendurada na parede. Na fotografia vê-se um prato com resto de uma tarte e 6 grandes amigos. Todos com sorriso amarelo e as bochechas muito coradas.
Cris
Não desistas. Passou de um carrossel para um triciclo. Mas é preciso pedalar.
Desistir não podes. Mas toma! Aceita este tempo de pausa que te oferecemos.
Julieta
Julieta era meiga. 14 foram os anos que partilhámos e 4 foram os filhos que adoptámos.
Julieta era amiga. Estava presente sempre que precisávamos da sua energia. Sempre que precisei de companhia. Nem que fosse apenas para me aquecer os pés. Aquecia-nos os pés, o corpo e o coração. Julieta era amiga.
Para quem não sabe, ficarás sempre nos nossos corações. Mesmo hoje que o coração está mirrado. Um cantinho é só teu.
Adeus Julieta.
Dificuldades Matinais
Amanhã ia ser diferente. Ia chegar mais cedo.
Em tempos tudo era mais pacífico. Quando ainda não tinha a “piolha”. Quando a única dificuldade em sair de casa era tomar a decisão de qual a melhor mala para aqueles sapatos. Bons tempos. Diferentes. Mas não havia uma única hora que atrasasse.
Desligou o Ipod e cumprimentou todos por quem passou. Ia tirando o casaco enquanto andava e já arrastava a velha sacola pelo chão.
Assim que abriu a porta, todos a esperavam. Teve apenas tempo de pôr os auscultadores e começar:
"Bom dia caros ouvintes. São 8 horas e segue-se uma hora cheia de músicas"
Ad Eternum
Nós não mudamos.
Muda o mundo, muda tudo,
Nós não mudamos.
Passam dias e anos.
Começamos a enrugar,
Não mudamos.
Acordamos, adormecemos.
Entrelaçamos as mãos.
Permanecem as rotinas.
Suspiramos e pensamos:
"Até quando?"