Mostrar mensagens com a etiqueta CNS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta CNS. Mostrar todas as mensagens

36 e meio

Todas a sextas de manhã era o mesmo. O corpo doía-lhe da pancada que ele lhe dava depois de se servir do corpo dela. Aliviava a raiva nela, de todas as formas que o corpo lhe permitia. Porque o fazia num silêncio ressentido que nela deixava nódoas negras ainda maiores. E mal havia luz do dia, ela levantava-se devagarinho e sem gemer. Para não o acordar. Para não o ver chorar e prometer-lhe que não voltava a acontecer. Preferia a pancada e o corpo rígido sobre o dela. Lavava-se, vestia-se e corria para a sapataria que ficava em frente à repartição de finanças onde trabalhava. E lá estavam eles. Vermelhos, sem preço.  Que as coisas que nos descansam os olhos não têm preço, dizia ela. E onde ias tu com uns sapatos daqueles, mulher? Perguntava-lhe a colega gorda e de cabelo oleoso, que estava na tesouraria. Até ao fim do mundo, respondia. Porque só o fim do mundo fica suficientemente longe daqui.
Até que numa sexta feira, daquelas sem movimento, uma mulher que já fora bonita pediu-lhe baixinho  a  guia para pagar o selo do carro. Ela levantou os olhos do teclado do balcão e viu-lhe o rosto negro e amassado, que tentava desesperadamente dissolver-se na madeira do balcão. O meu homem zangou-se por eu ter deixado passar prazo. Fez um sinal à colega gorda e oleosa da tesouraria. Um sinal com a mão, porque o nó da garganta não a deixou falar. Para que ficasse no lugar dela um bocadinho. E saiu disparada até à loja da frente, onde comprou os sapatos em troca da aliança. Nem se quis ver ao espelho com eles calçados. Disse o dono da sapataria. E também não disse para onde ia. Mas não deve voltar.Que os sapatos lhe serviam como uma luva.

Caixa de Sândalo

Sempre que imaginava as coisas mais do que três vezes, elas aconteciam.  Acontecera com o vizinho. Que fora encontrado morto  na cama. De rosto retorcido pela dor. Tal e qual como ela o imaginara sempre que ele lhe respirava para cima do decote, enquanto lhe agarrava pelo braço.  Acontecera com o irmão mais velho, de quem tantas vezes se imaginara despedir  no cais, partindo para a guerra de Angola.  Acontecera a filha, de quem sempre imaginou a cor de fogo do cabelo. Mas quando se imaginou nos braços  do professor de música que vivia no anexo dos pais,  ganhou medo aos seus próprios sonhos.  Porque havia sonhos que uma mulher casada com um homem de cabelos pretos, não podia  ter.  Por isso, passou a escreve-los em pequenos cartões sempre que se repetiam. Escrevia-os na sua letra miudinha,  guardava-os numa caixa de madeira perfumada, escondida num canto do guarda-fatos.  Lentamente, foi-se esvaziando dessas coisas que lhe perseguiam a imaginação, na mesma toada  que a sua vida se esvaziava de gente e de tempo.  E quando a solidão grisalha chegou, lembrou-se da caixa. Abriu-a e tirou o cartão que tanto vazio lhe trouxera. E leu-o três vezes. Ou talvez mais. Leu-o até ouvir a campainha da porta. Para onde correu. Onde ficou de pernas tremendo. E quando a abriu estendeu-lhe os braços. Ao professor de música que vivera no anexo dos pais. A quem o tempo não roubara o cabelo cor de fogo.

Elvira Madigan

Sempre que via aquela fotografia comovia-se. Porque se imaginava assim, quando chegasse aquele tempo. Quando as rugas das suas mãos se encaixassem nas dele. Ele, cujo nome ainda não conhecia. Só sabia que tinha um sorriso terno enquanto tocava o piano do salão. Conhecera-o naquela passagem de ano em casa do tio. Parecia-lhe que fora ontem, tão nítidas eram as imagens e os cheiros. Olhos cerrados e dedos longos sobre o piano, ao fundo da sala, junto à janela que dava para o terraço. Ela, vestida com os seus grandes olhos azuis,  achou que ele tinha umas mãos lindas. Sorriu. Apaixonara-se nessa noite por elas. E como ela queria que o amor por aquelas mãos durasse até ao tempo daquela fotografia. Suspirou. A música do piano subia as escadas. Ele estava lá em baixo, no salão. Levantou-se para escolher um lenço que lhe realçasse os olhos. Ele gostava de a ver de azul.
A porta do quarto abriu-se. Uma rapariga de olhos tão azuis quantos os seus entrou no quarto. Abraçou-a por de trás e sorriu-lhe pelo espelho. A por-se bonita, avó?. Ela encolheu os ombros envergonhada. Gostava daquela rapariga de quem não se lembrava o nome e que lhe teimava em chamar avó. Ela, que ainda era tão nova, a ouvir a música do piano debruçada na varanda do terraço. Mas gostava dos seus olhos. Faziam-lhe lembrar os seus.

Algés

A oficina ficava perto da estação de comboio. De manhã, ele abria com as suas mãos de quatro dedos, as portas azuis, que deixavam cair mais umas escamas de tinta na calçada. Varria as aparas de madeira e trazia as cadeiras envernizadas para o alpendre. Ficava uns instantes à porta e acenava ao cigano que no Inverno vendia chapéus de chuva à entrada do túnel para a estação. No Verão vendia bóias e chapéus de sol. Adeus Alfredo, dizia-lhe. O cigano sorria e respondia. Já aí vou. O marceneiro ficava uns instantes à porta, a ver as pessoas a entrarem apressadas no túnel da estação. De onde se ouvia a musica desafinada do cego do acordeão. Os dias delas corriam mais depressa que os seus. Que se arrastavam por entre o cheiro pegajoso de verniz e as aparas que se acumulavam lentas, no chão da oficina. Depois do último comboio da manhã o cigano chamava-o à porta com duas cervejas na mão. Sentavam-se nas cadeiras do alpendre, bebendo as cervejas pelo gargalo. Em silêncio. Até que o marceneiro apontava para a marisqueira do outro lado da rua e dizia-lhe. Quando vender uma mobília de quarto pago a uma mulher e vou ali jantar. Nunca comi lagosta, nem sei a que sabe, dizia-lhe o cigano. O marceneiro suspirava e punha a garrafa vazia debaixo da cadeira. E eu ainda não sei a que sabe o corpo de uma mulher.

Moleskine

Trazia sempre consigo um caderno de capa preta. Sentava-se no banco verde do pátio, o que tinha menos uma tábua e escrevia uma linha sempre que alguém passava. Nos dias de chuva sentava-se no café, numa mesa perto da janela e longe dos olhares dos homens que pediam um bica traçada com aguardente. Um dia, parou de escrever e colou uma fotografia na capa.  Uma terra gretada, um quase deserto. Quando lhe perguntei  o porquê da foto, levantou-se do banco verde,  o que tinha menos uma tábua e disse. Só me faltava uma pagina para acabar o caderno. A página do deserto. Porque é dele que nascem as estorias. Nas paginas onde escrevia ainda só estão guardadas pessoas. Que esperam o parir da minha estória.

Retorno

As estórias dele só poderia ter acontecido lá. Porque tinham um lugar. Um cheiro. Um céu. As dela podiam ser em qualquer parte do mundo. As estórias dele não cabiam no velho saco da TAP. Transbordavam, sempre que ele guardava lá dentro mais um objecto inútil. Esperando que um dia fossem precisos. Nunca foram. As estórias dela cabiam arrumadas no álbum de fotografias. Todas elas tiradas dentro de casa. Todas elas cheiravam a quotidiano. A roupa nova estreada, a receita por experimentar. Ao lanche com as pessoas de sempre. Ele todos os dias olhava para o velho saco da TAP, arrumado no canto escuro da dispensa. Continua cheio, pensava. E para que não transbordasse, por vezes desdobrava as suas recordações em forma de estórias. Que tinham rectas intermináveis e jacarandás em flor. Que sabiam a cerveja e conversas ao fim da tarde. Ela por vezes lembrava-se do seu álbum. Já lá não cabe mais nada. O retorno já foi feito. Pensava. E encolhendo os ombros, dizia. Nunca me dei bem com o calor de lá. 

Beautiful



A memória é uma casa de paredes construidas pelos nossos olhos. Disse. No chão o olhar em busca de saudades. No resto da sala a música que a transportava à infância. Nesse momento sentiu-se sentada na alcatifa verde do quarto. O cheiro a algodão lavado dos lençois, misturado com o de cêra dos lápis. E os olhos. Perdidos num futuro que  se desenhava simples numa folha de papel. O que é essa casa para ti? Perguntou-lhe ele. Ela levantou-se do seu passado forrado a alcatifa. Um abrigo. Um telheiro. Porque depois de crescermos percebemos que o presente é chuvoso. Sorriu-lhe, estendendo-lhe a mão. Ele viu que encerrava mais um tijolo.E uma música dos Marillion

Cinco toques

Um. O teu telemóvel está a tocar. Digo-lhe. Ela tira-o da mala. Revira os olhos depois de ver o número e guarda-o com um suspiro. Não atendes? Dois. Não. Não tenho nada para lhe dizer. Dei-lhe o número porque não sei dizer não. Agora insiste em ligar-me. Três. Diz que já não falamos há imenso tempo. Felizmente. Não tenho nada para lhe dizer. Quatro. Mas insiste. Diz que tem coisas que gostava de partilhar, de conversar. Mas eu não tenho nada para lhe dizer. Cinco. Nada, nem tempo para ouvir o que não me interessa. O telefone cala-se e ela bebe o resto do café. As pessoas são naturalmente surdas. Ouvir os outros é um esforço evolutivo tremendo. Uma espécie de polegar extra. Ela pousa a chávena e ficamos ali as duas. A fingir que olhamos o fogo.

Silêncio, Câmara.... Escrevam!

Olá :)

Como estava pouco inspirada, pedi ajuda à Cristina para este desafio. Claro que ela teve uma ideia brilhante:

- Escrever um texto sobre " o filme da minha vida"

Toca a trabalhar nas sequelas. :)

Jocas

Número primo

A divisão é menos humana de todas as operações. Isto porque poucas serão as pessoas divisíveis por mais alguma coisa que não elas próprias. Pensei nisso enquanto a mulher falava. De procissões e crianças vestidas de anjo. Pelo meio falou em caridade. No bem que lhe fazia dar o que já não lhe fazia falta. E enquanto apontava para o saco de brinquedos velhos e surrados pelo sol, eu ainda pensava na primeira pergunta que ela me fizera. Acreditas em Deus?

Ram Dass - Mote um, Take 2


Não gosto de gatos. Nunca gostei de gatos. Nem nunca percebi o charme nesse animal tão antipático e interesseiro. Quis ter um cão. Mas os meus pais, do alto do 10º andar onde vivíamos nunca me deram hipótese de sonhar com o assunto.  Então decidi. O que eu quero mesmo é ter um macaco. Tem juízo e come a sopa. Ó mãe um macaco pequenino, que andasse sempre comigo no meu ombro. E eu aí poderia deslizar pelos telhados da cidade. Visitando as outras águas furtadas. Com o meu macaco no ombro. Mas nós nem temos águas  furtadas. Vá, come a sopa. Mas suponhamos, mãe. Apenas. Para isso teria de usar um turbante. E ser indiana.  Não, melhor, eu tinha o macaco, e ficava à espera do Ram Dass da janela das minhas águas furtadas. Ram Dass? Quem é o Ram Dass, por amor de Deus? Duas colheres sopa e um encolher de ombros. Suponhamos mãe, suponhamos que eu era como aquela  menina da estória, que vivia no sótão. Filha, essa menina, ficou pobre e sozinha. Tu tens muito mais sorte. Não tenho não. Não tenho macaco, nem lareira acesa quentinha a meio de uma noite fria. Não tenho uma amiga chamada Becky, nem uma boneca chamada Emily. Tens outras bonecas, outras amigas, mas com outros nomes. Vá come a sopa. Mas sem esses nomes a estória não é a mesma. Porque são os nomes quem as contam. São os  nomes que desenham os rostos, o sorriso claro no rosto escuro do Ram Dass,  do outro lado do telhado.  E os olhos verdes e grandes da Sara que vêm para além do frio e da tristeza. Porque  eu quero um macaco e um vizinho indiano. Ou pelo menos quero sonhar com eles hoje. Fazer de conta que vivem ali, à distancia de um deslizar de telhado. Porque mãe, sem nomes não há estórias. E temos de imaginar. Porque esse é  o outro nome que damos ao acreditar.

Currais

O comboio corre na linha do mar. Cerras os olhos e abandonas a cabeça por entre as mãos. Não há silêncio recortado pelo som dos cagarros. O cheiro a mar dilui-se no tabaco que paira junto ao vidro das janelas.  Há uma mulher que se senta à tua frente. Uma mulher velha. Que não veste preto. Nem traz um terço entre os dedos curtidos pelo sal . Os mesmos que já levaram uma conta na festa do espírito santo. No tempo em que ainda eram longos. Tão longos que à noite quase tocavam nas luzes do Faial. Cerras os olhos. A tua mãe que reza.  Pai nosso que estais no céu. O cinzento do céu que escorre  no basalto preto. Lá em baixo, para além dos currais, o mar encrespado bebe-te o ar.   Alarga-te a distância. Seja feita a tua vontade. Aqui no céu e na terra. As videiras sob a maresia. O sino que toca. Corres para o moroiço que dá para os currais. Sentas-te com a cabeça presa entre as mãos. Como vais agora. Respiras. O ar é viscoso e sabe a sal. A chuva esmorece por entre os poros negros da pedra.  Agora e na hora da nossa morte. Os passos do padre na bagacina. E os sinos que tocam. A tua mãe que chora. Escorre-lhe o verde dos olhos, para o preto do fato. Beija a cruz.  Ergues o rosto. A velha à tua frente cruzou as mãos na colo. Suspira. O comboio chega e tu levantas-te. Amém. Pareceu-te  ouvi-la sussurrar. Mas é a voz da tua mãe no aeroporto. A voz da ilha que ficou para trás. Seja feita a tua vontade, filho. Amém.

Mote Um - Take 2

Quando o blogue começou tentei lançar um mote de escrita. Aproveito agora esta onda de desafio para o lançar de novo. Trata-se de um excerto de um livro que gosto muito. Estas linhas falam de pertença, de gatos e de solidão... Mãos à obra

Data de publicação: Quarta feira às 12.00

Até lá!

Mote Um

Gymnopédie

Posso pensar num dia  cinzento. Cheio de chuva miúda e de guarda-chuvas. Azuis. Mas neste acorde há um cor de malva. Que atravessa em passo apressado a rua inundada de sons molhados. A pausa faz-me pensar numa espera. Porque as esperas dão sempre boas estórias. Toda a gente espera alguma coisa. E sempre do outro lado. Da rua. Da janela. Da vida. Há alguém que espera. Sentado na mesa da janela. De um café de toldo amarelo. O guarda-chuva cor de malva está do outro da rua. Na mão de uma mulher de gabardine preta. Ele acena-lhe. Ela não vê. Apenas porque os acordes agora são simples. Como um rosto distraído. De olhos pousados nas cores da camisola do homem das castanhas. Pausa. O homem do café suspira. E acena-lhe de novo. Não sei se sorri, porque está de costas. De rosto voltado para a janela. Ela atravessa a rua, por entre dois chapéus de riscas. Pausa. Pára à porta do café. Sacode o chapéu. E os olhos verdes escorrem nas sombras do café. Sorri para o homem da mesa da janela. Cinco passos e um sorriso, enquanto afasta os cabelos humidos do rosto. Senta-se. O dia pára do outro lado da janela. A chuva não. Trocam algumas palavras. A Gymnopédie termina. Não os oiço. E os seus vultos esbatem-se. A estória ficou por contar no último acorde.




* Gymnopédie nº1 - Erik Satie.



A janela do Bairro do Oriente



Todos os dias se sentavam à mesma mesa. A que ficava a dois passos da janela. E perdiam o tempo, entre a comida que arrefecia e os olhos que se bebiam. Do outro lado da rua via-se a janela do quarto. Dele. Onde todas as noites se encontravam. Ele acendia a lamparina que trouxera das arábias. Dizia-lhe. É para te amar à luz das noites sábias. E ela respondia. Não gosto de luz. Mesmo a ténue do azeite. Ele punha a musica a tocar. Prefiro o silêncio. Dos oboés e das palavras. Dizia-lhe. E as noites passavam entre beijos de alfazema e orquideas da Etiópia. Acordavam com a luz do meio dia. E desciam para saciar a fome que já não tinham. Debruçavam-se em beijos e caricias, sem palavras. Um dia, ele deu-lhe um astrolábio. Não gosto de presentes. Para guiar o meu amor por ti.Disse-lhe ele. Ela levantou-se e perdeu o sorriso por entre a brisa de alfazema. Não gosto de palavras. Acendeu a lamparina e olhou-o à luz do azeite. Não gosto de palavras. Porque tornam o amor real. Saiu. E a mesa a dois passos da janela ficou vazia. Semana após semana. Da janela do quarto vê-se a lamparina acesa. Junto à cornocopia com alfazema. E há quem diga que todas as noites se ouve uma música de Rui Veloso.


p.s  -À Marta. Porque mais vale tarde do que nunca. :)

Folhas soltas de um diário inexistente (I I) - Desafio

Lembro-me do seu ar distante. Da ausência no metálico da voz. Lembro da dependência que ela tinha com a imagem. Com o que os outros pensavam dela. Com o que diziam. A minha mãe vivia dentro de uma personagem. Da pessoa que pensava que deveria ter sido. Olhava com desprezo para a minha pele morena. Para os traços rudes herdados de meu pai. Olhava com o azul aguado dos seus olhos desprovidos de afecto. Ficava sentada na sua cadeira de palha, fingindo que lia. Indiferente à minha vida, que corria desprendida noutra casa, dentro da nossa. A ultima vez que falamos foi dias antes da clandestinidade. Entrei na sala com o saco verde às costas. Ela ergueu os olhos. Pareces o infeliz do teu pai. Serás sempre um infeliz como o teu pai. Não lhe respondi. Entre nós havia apenas laços de silêncio. 

Eu e ela, por diferentes razões, fomos sempre seres destituídos de liberdade, sempre fomos escravos acorrentados às grilhetas dos nossos enganos, dos nossos erros, dos nossos equívocos, das nossas verdades. Nunca desenvolvemos as capacidades necessárias à ‘liberdade de aquiescência’ enunciada por Adriano nas suas memórias descritas por Marguerite Yourcenar (... dispondo-me a considerar um exercício útil os meus anos de dependência, a minha sujeição perdia o que tinha de amargo ou mesmo de indigno. Escolhia o que tinha, obrigando-me apenas a tê-lo totalmente e a apreciá-lo o melhor possível. ...) e assim, sem essa capacidade de escolher o que tínhamos, e de lhe atribuir um valor estimável, nunca fomos capazes de nos aceitar um ao outro nem a nós próprios.

Desafio II



Seguindo a linha iniciada pela Isabel,  proponho-vos o seguinte:
Continuar a estória do  Duas Estrelas  Peguem na ultima frase e comecem a vossa versão:


Que deixava no balcão ao sair, juntamente com a nota de dez...


Proponho também que publiquem os textos todos à mesma hora e mesmo dia. 
Sugiro  Sexta-feira,dia 30 às 11.00.h . O que vos parece?
Mãos à obra! ( Confesso que estou bem curiosa...)


Cristina

Vento da Serra.

Deixa estar o avô.  Deixa-o dormir. E ela ficava sentada olhando a porta entreaberta.  Não faças barulho. Lá dentro o vulto  recortava a penumbra. Debatendo-se com o ar que já não tinha. Deixa estar o avô. E o avô definhava. Ficava cada vez mais pequenino. Mais perdido debaixo das mantas de rosetas de tricot. Vou-te levar à serra. Dissera-lhe naquela manhã. Na serra sopra um vento quente que canta nas urzes. Que cheira a tomilho e flor de laranjeira. E dera-lhe um pequeno frasco de rolha de cortiça. Para guardares o vento. Para que respires sempre de braços abertos. Sempre. Ela ajoelhara-se no lapiás e guardara todo o vento quente que pensou caber dentro daquele vidro azulado. Deixa estar o avô.  Ouvia-lhe o respirar morno pela porta entreaberta.  Entrou devagarinho. Sem que a vissem.  O avô abriu os olhos. O peito afundava-se sem ar. Abre os braços avô. Disse, enquanto os afastava docemente do corpo magro. Abre os braços avô. Repetiu enquanto tirava a rolha de cortiça do frasco. É o vento da serra. Para que respires sempre de braços abertos.  E o avô quase-sorriu.  Imediatamente antes da mãe entrar no quarto. Eu disse-te para deixares o avô dormir.  E o avô adormeceu. De braços abertos. Já sem respirar.


( Missão cumprida, Isabel ;) )

Technicolor

...
.
.
  Toca um bocadinho para o teu padrinho  ouvir. Todos os domingos o mesmo pedido. Toca aquela do Charlot. Ele sentava-se penosamente no banco forrado a veludo verde. Abria a tampa do piano e colocava a pauta  no suporte. Suspirava. Os dedos pesados nas teclas. O ritmo, esse corria-lhe nos olhos que teimavam em fugir para a janela do jardim. Ele tem ido às aulas de piano? Perguntava o padrinho. A mãe dizia que sim. Com o mesmo jeito no queixo com que mentia sobre a idade dele no combioio. Ainda tem seis. E o revisor rolava os olhos desconfiados pela sua altura de oito anos. Sim, vai todas as quintas-feiras. O padrinho acendia um charuto. Faz bem, tem de praticar.  Por detrás dos acordes desafinados ele via o filme da matiné de domingo. Ó mãe, eu não gosto de tocar piano. Eu gosto é de cinema. A mãe puxava-lhe as meias da farda até ao joelho. O padrinho faz gosto nisso. Por isso te deu o piano. Um acorde fora de tom. Tens de praticar mais, menino. A voz de charuto  espalhava-se como fumo pela sala. E vê se aprendes outras musicas que não estas do Charlot.  São as manias dele do cinema. Justificava a mãe como que a pedir desculpa. Ele mordia os lábios e desafinava de novo. É a musica do Luzes da Ribalta. E toda a gente que gosta de cinema já viu o filme. Pensava. Que passava hoje de novo nos bombeiros.  Ó mãe eu gosto é de cinema. Quando crescer quero  ser realizador. E colocava os dedos em quadrado. O padrinho faz gosto no piano. E ele nem gosta de filmes. Deixa-te dessas ideias. O último acorde. Desafinado. O padrinho acenava em aprovação. A mãe sorria de alivio. E parecia-lhe que a sala escurecia. O sofá com mãe e o padrinho ficava a preto e branco. Tenho de lhe comprar um metrómeno. Dizia  enquanto acendia outro charuto. Lá fora, o mundo corria a cores.

51

O autocarro partiu. E a rua esvaziou-se. No preciso momento em que as sombras se começavam a encurtar pelo passar da manhã. Agora resta o homem do quiosque que arruma os jornais. E os velhos do café que esperam a hora do almoço, ou outras horas de solidão. Há também um homem sentado na berma do passeio. Não é um pedinte. Mas canta uma lengalenga sem sentido. O homem do quiosque manda-o calar. Chama-o pelo nome. O homem levanta-se e resmunga. Vai para casa, Gregório. Repete o homem do quiosque. Que sabe que ele não tem casa. Só uma caixa de cartão com umas mantas que estende em frente ao armazem dos tapetes. Uma mulher e uma criança aproximam-se da paragem. Ele segue-as. A mulher evita-o com olhar. Está incomodada. Vai para casa, Gregório. Ele encolhe os ombros e pede qualquer coisa à mulher. Tem o rosto muito proximo dela. A mulher retrai-se com medo. Um medo semelhante ao que tem de cães. Puxa a criança para si. Ele repete a pergunta. Mas as palavras não têm sentido. A mulher olha para fim da rua. Ao fundo o autocarro aproxima-se. O homem também. A mesma pergunta sem sentido. Irritado encolhe os ombros. Apanha uma beata do chão e mete-a na boca. Finge que fuma. Vai para casa, Gregório. E ele desce a rua até ao armazem. Senta-se nos cartões com a sua beata na boca. O autocarro passa. E a rua esvazia-se de novo.