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as casas construídas na infância
Não precisam de chave as casas que encontramos a par e passo na memória. Têm entradas fáceis, as portas não precisam de empurrão, as janelas são cortinas ao vento e o cheiro a marmelada mostra-nos que não nos enganámos no caminho. Nas casas que guardamos na memória há roupa lavada com perfume de alfazema, baldes de água que se nos distraímos entornamos, gatos perdidos sem fome porque não falta alimento, mesas postas protegidas com guardanapos para fintar as moscas. Nestas casas, tão nossas, as paredes são álbuns de fotografias protegidos pelos vidros, as almofadas resistem ao tempo que passa e passará e ninguém diz que não a uma sesta no sofá da sala a meia luz. As casas da infância que de quando em quando visitamos são palácios à espera dos nossos sonhos de meninos – tão intactos como os álbuns que preenchem as paredes. Lá nunca ganham pó.
Ela tem corpo de menina que não conheceu outra vida. Achou-se nos rumos perdidos que a levaram para longe da terra onde nasceu - uma escolha própria com pouco de vontade. Aos olhos dos outros tem nomes feios, é coisa ruim que não interessa conhecer. Sequer olhar. Ninguém nunca lhe olhou o sorriso porque quando a vêem fazem caras más. Más como o nome que lhe dão quando de fininho corre as ruas da terra que não é dela, nunca será, para em postais coloridos partilhar com os pais - lá longe - que sim, tem uma boa vida, uma patroa simpática. Lá longe eles não sabem nem sonham que é o corpo de menina que lhes paga a carne com feijão que voltaram a pôr na mesa.
alentejo
Encostam os braços nas esquinas do tempo que passa, para conversa fiada que fia os dias e os gasta mas também lhes dá alento. Curvam os corpos para ouvirem melhor o que se diz à mesa do café entre uma cartada e um golo no tinto que os conserva. Já foram – dizem – corpos suados pelo trabalho no campo que os gastou mais do que a vida que passou por entre os braços sem que dessem conta. Sai-lhes a voz em tom baixo – só se eleva quando o motivo faz rir – e arrastam os pés em dó menor.
- Quer sentar, menina?
No Alentejo há sempre lugar para mais um.
Nas mesmas esquinas por onde o tempo passa devagar.
- Quer sentar, menina?
No Alentejo há sempre lugar para mais um.
Nas mesmas esquinas por onde o tempo passa devagar.
terceira idade
Tinha 80 anos e um gato
três sobrinhos, sete netos emprestados e uma cesta de maçãs na mesa da cozinha.
no aniversário pediu um telemóvel: para marcar encontros
deram-lhe, em vez disso, um galheteiro cor-de-vinho.
três sobrinhos, sete netos emprestados e uma cesta de maçãs na mesa da cozinha.
no aniversário pediu um telemóvel: para marcar encontros
deram-lhe, em vez disso, um galheteiro cor-de-vinho.
Sítios
'Sempre chegamos ao sítio onde nos esperam'
- José Saramago*
Por mais voltas que tenhamos que dar e por mais desvios que se nos apareçam no caminho. Há quem nos espere para almoçar, como diz a Rita, há quem sempre nos encontre no coração ou na cabeça ou numa mesa de um qualquer café de uma qualquer cidade. Ou num sítio, um sítio sem nome, onde se saboreiam as letras e se testam as palavras.
* sobre Saramago já foi tudo dito por aqui e por ali. Eu só acrescento, neste sítio sem nome onde damos nome às coisas, que ainda bem que ele existiu e nos deu tantas palavras.
- José Saramago*
Por mais voltas que tenhamos que dar e por mais desvios que se nos apareçam no caminho. Há quem nos espere para almoçar, como diz a Rita, há quem sempre nos encontre no coração ou na cabeça ou numa mesa de um qualquer café de uma qualquer cidade. Ou num sítio, um sítio sem nome, onde se saboreiam as letras e se testam as palavras.
* sobre Saramago já foi tudo dito por aqui e por ali. Eu só acrescento, neste sítio sem nome onde damos nome às coisas, que ainda bem que ele existiu e nos deu tantas palavras.
o mapa do costume
Nunca soube o caminho para a casa da minha mãe apesar de sempre ter conseguido chegar antes da missa começar todo o santo domingo. Nesses tempos não havia GPS mas acreditem que pouca diferença teria feito por não se tratar de uma questão de orientação, antes um absentismo de afectos que ela cultivou como um jardim durante a minha infância e juventude. Não eram tempos fáceis, em que faltava o pão para a boca, mas na casa dos vizinhos ouviam-se risos e brincadeiras que substituíam na perfeição o arroz de feijão, que lhes faltava na mesa tanto quanto a nós. Talvez mais, apesar da minha mãe jamais o ter admitido. Para o que ela tinha mesmo jeito era para apontar o dedo ao meu pai, caído sem jeito nem proveito no sofá depois de cada matiné de copos com o Abílio e o Ja’quim na tasca do costume. O meu irmão não saía da cama, preso a uma poliomielite aguda que o imobilizou para a vida mas nunca lhe tirou o sorriso – não sei como mas diz que a estrutura emocional de cada um explica isso e eu acredito. E olhem que há poucas coisas em que eu acredito. Em mim, por exemplo, nunca acreditei. Nem nos caminhos que sempre me levaram onde os outros queriam que eu estivesse mas nunca onde eu realmente quis estar. Nunca me perdi ou equivoquei com os sinais de trânsito mas na realidade nunca consegui entender os meus próprios sinais. Nem os dos outros em relação a mim. Casei com o Alberto depois de muita insistência da parte dele – que me seguia na rua e mandava flores e cantava sonatas desafinadas no meio da rua – mas acabei com as malas à porta depois de um jantar de amigos em que me acusou de o enganar. Nunca lutei pelo que quis porque nunca soube o que era. Sou florista porque a dona Rosa me empregou num Verão e me aceitou sem data de fim na pequena boutique recheada de peónias. Sou assim porque nunca me mostraram o caminho, porque nunca ninguém acedeu dar-me a mão na descoberta do meu rumo – hoje sei isso. mas já não conduzo.
Desafio Mapas e Caminhos
'O MAPA*
Um dia perguntou-me:
Estudaste os teus mapas? Conheces os caminhos?
Olhei-a desconfiada e, cheia de medo de me perder,
desenhei-me em quadrado,
desfiz-me em quilómetros'
(* de Filipa Leal; autora de, entre outras obras, 'Talvez os Lírios Compreendam'. Na minha opinião uma das vozes mais frescas da poesia portuguesa na actualidade)
'Bora a mais um desafio? Sem tempo nem hora marcada, o que acham? Cada um escreve quando puder e quiser, quando a inspiração baixar, quando os dedos fincarem lugar na folha em branco.
- Partimos deste texto sem o incluir nos nossos. Unicamente como ideia-base, como inspiração - vamos chamar-lhe assim. Parece-vos bem?
Um dia perguntou-me:
Estudaste os teus mapas? Conheces os caminhos?
Olhei-a desconfiada e, cheia de medo de me perder,
desenhei-me em quadrado,
desfiz-me em quilómetros'
(* de Filipa Leal; autora de, entre outras obras, 'Talvez os Lírios Compreendam'. Na minha opinião uma das vozes mais frescas da poesia portuguesa na actualidade)
'Bora a mais um desafio? Sem tempo nem hora marcada, o que acham? Cada um escreve quando puder e quiser, quando a inspiração baixar, quando os dedos fincarem lugar na folha em branco.
- Partimos deste texto sem o incluir nos nossos. Unicamente como ideia-base, como inspiração - vamos chamar-lhe assim. Parece-vos bem?
Praia Grande aka Folhas Soltas de um Diário Inexistente (II)
Eu e ela casámos em 1952, um mês e 4 dias depois de nos conhecermos na Praia Grande, num dia de Inverno que prometia uma enxurrada. Não sei o que nos atraiu naquela tarde, naquela praia, naquelas condições, mas fomos atirados um para o outro pelo vento manhoso da época que lhe levou o chapéu de abas largas para cima da minha pasta de couro. Ficou preso na fivela foi o que foi mas isso não explica nada. Ou explica tudo, nem sei. Se já soube também não sei. Esqueci-me de muito, quase tudo, do que ficou para trás. Depois disso cultivei o penteado criteriosamente para trás, depois disso ela emagreceu a ponto de lhe embaciar a pele – nem as 5 gravidezes a incharam por debaixo do vestido. Nasceram os Josés de enfiada, o Zé Manel, o Zé Tó, o Zé Maria, o Zé Francisco, o Zé Fernando e não tentámos mais. Mudámo-nos para quartos separados – nenhum de nós ficou com o que era o nosso e o silêncio instalou-se à mesa de jantar quando os pirralhos começaram a crescer e a preterir-nos aos cafés e cervejas na tasca da vila. Nunca falámos daquela tarde na Praia Grande, do chapéu de abas largas nem da minha pasta de couro. Ela nunca mais usou o chapéu, sinal, disse apenas, de um passado que ficara para trás. Nunca lhe cobrei as memórias que esperei dela e que nunca chegaram a ser futuro. Nem lhe cobrei o Zé Manel, gaiato loiro de olhos azuis esverdeados ao pé dos irmãos escuros como azeitonas – que o bairro dizia ter saído ao padeiro. Fosse o padeiro loiro e até tinha acreditado, isto antes da verdade brotar lúcida e dolorosa em forma de letra. Anos depois do casamento – ao qual só foram duas testemunhas que encontrámos no banco do jardim e precisavam de meia dúzia de escudos para cigarros (daí aceitarem o convite à vista das moedas) – descobri uma carta que ela nunca chegara a enviar. E que não era para mim, não era, óbvio que não era, ela nunca me escreveu. Na carta, sem remetente, li que um moço escuro como uma azeitona a tinha salvo de se afundar no mar da Praia Grande, a ela e à barriga, que em breve cresceria. Graças ao moço, continuava a carta, tinha escapado da morte no mar e da vergonha de ter sido largada pelo marinheiro, tão loiro, de olhos azuis esverdeados – que embarcara rumo a outros portos. Nunca lhe perdoei, nem ela a mim, ter aberto a carta. Nunca me perdoei não ter batido com a porta e abandonado aquela mulher que nunca foi minha na casa onde nunca fomos felizes – como o marinheiro. Mas afeiçoei-me ao garoto, o que fazer, ao meu primeiro José que nem era meu, e deixei-me estar, com o cabelo criteriosamente penteado para trás num quarto só meu, numa casa de todos e de ninguém.
...
‘Eu e ela, por diferentes razões, fomos sempre seres destituídos de liberdade, sempre fomos escravos acorrentados às grilhetas dos nossos enganos, dos nossos erros, dos nossos equívocos, das nossas verdades. Nunca desenvolvemos as capacidades necessárias à ‘liberdade de aquiescência’ enunciada por Adriano nas suas memórias descritas por Marguerite Yourcenar (... dispondo-me a considerar um exercício útil os meus anos de dependência, a minha sujeição perdia o que tinha de amargo ou mesmo de indigno. Escolhia o que tinha, obrigando-me apenas a tê-lo totalmente e a apreciá-lo o melhor possível. ...) e assim, sem essa capacidade de escolher o que tínhamos, e de lhe atribuir um valor estimável, nunca fomos capazes de nos aceitar um ao outro nem a nós próprios’.
...
‘Eu e ela, por diferentes razões, fomos sempre seres destituídos de liberdade, sempre fomos escravos acorrentados às grilhetas dos nossos enganos, dos nossos erros, dos nossos equívocos, das nossas verdades. Nunca desenvolvemos as capacidades necessárias à ‘liberdade de aquiescência’ enunciada por Adriano nas suas memórias descritas por Marguerite Yourcenar (... dispondo-me a considerar um exercício útil os meus anos de dependência, a minha sujeição perdia o que tinha de amargo ou mesmo de indigno. Escolhia o que tinha, obrigando-me apenas a tê-lo totalmente e a apreciá-lo o melhor possível. ...) e assim, sem essa capacidade de escolher o que tínhamos, e de lhe atribuir um valor estimável, nunca fomos capazes de nos aceitar um ao outro nem a nós próprios’.
entre o lar e a pensão aka Duas Estrelas
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Tirava sempre o anel do dedo na esquina da padaria para que no lar não pensassem que enlouquecera de vez. Eles já a achavam doida, ouvia-os nos corredores, eles achavam que não, mas ouvia-os. Varrida, varrida, conspiravam, quando a viam pelas costas. Subestimavam-lhe a audição, era o que era, mas deixara de se preocupar com isso havia tempo. Tinha coisas muito mais importantes a fazer. Como ludibriar a rotina do quarto da mansarda delineando num papel as combinações possíveis: segunda e terça, segunda e quarta, segunda e quinta, segunda e sexta. Só terça. Terça e sábado, quarta e domingo, sexta e sábado. Só domingo. Isso era importante, vital, prioritário, respiração, sentido, rumo. E aqueles velhotes que contra ela falavam não, não sabiam, sequer imaginavam, as coisas que tinha para fazer, pensar, decidir, preparar. Vidas sem sentido eram as deles, loucas até, a vida esgotar-se e a consumir o calendário, e eles a jogar às cartas, ao berlinde, ao bilhar, à bisca, à canela com reumático e a conspirar contra quem tem vistas largas. Como ela. Foi há um ano, ano e meio, dois (?) já não lembra, que aquele pedacinho doirado a brilhar no passeio lhe cativou a atenção. Olhou para um e outro lado e os transeuntes apressados não pareceram reparar nela, mulher velha, cruzes tortas a baixar-se junto ao esgoto para apanhar um anel. Melhor, assim. Era dela. dela, dela, dela. não podia usar no lar, não podia, os velhotes, já se sabe, iam gozar, provavelmente humilhar, à frente talvez, já não nas costas. E isso ela não iria aguentar. Aí começou o plano, que coseu na cadeira de baloiço ao mesmo tempo que umas botinhas brancas para a neta da Matilde. Tinha de arranjar um sítio onde fosse livre para ver brilhar o anel: porque não a pensão, aquele onde a filha da Josefa se perdeu de amores pelo jardineiro, que ficava depois da esquina da padaria do Manel da Tita e antes da joalharia da Tonia e do Zeca. Ninguém saberia, estava certa. Pelo menos não os velhotes do lar, sempre zombeteiros dos males de amor, nunca os encontraria num sítio onde não houvesse bisca nem berlinde. Telefonou. Pediu o quarto da mansarda. Marcou para daí a uma semana a primeira tarde. Juntou papel e caneta na bolsa do tricot, envolveu o anel num guardanapo que encontrara na sala comum e cheia de si entrou. Puxou os lençóis para trás, para desviar as atenções, olhou a janela e começou a escrever, depois de colocar o anel. Sabes, António, o mal que me fizeste/não impede este amor que perdura/ para lá do tempo que foi o nosso.
O poema era sempre o mesmo.
Tarde após tarde. Nunca o conseguiu levar para o lar com medo que os velhotes descobrissem. Deixava-o por isso junto com a nota de dez ao sair. Porque se o anel só era dela no quarto da mansarda, o amor também. O não-amor. O amor que não chegou ao altar porque o António desistiu da louca, como se dizia na terra, da doida, varrida varrida, há quase cinquenta anos. E ela que queria tanto uma aliança.
[Para ti, Cristina, porque não é fácil continuar um texto brilhante]
Tirava sempre o anel do dedo na esquina da padaria para que no lar não pensassem que enlouquecera de vez. Eles já a achavam doida, ouvia-os nos corredores, eles achavam que não, mas ouvia-os. Varrida, varrida, conspiravam, quando a viam pelas costas. Subestimavam-lhe a audição, era o que era, mas deixara de se preocupar com isso havia tempo. Tinha coisas muito mais importantes a fazer. Como ludibriar a rotina do quarto da mansarda delineando num papel as combinações possíveis: segunda e terça, segunda e quarta, segunda e quinta, segunda e sexta. Só terça. Terça e sábado, quarta e domingo, sexta e sábado. Só domingo. Isso era importante, vital, prioritário, respiração, sentido, rumo. E aqueles velhotes que contra ela falavam não, não sabiam, sequer imaginavam, as coisas que tinha para fazer, pensar, decidir, preparar. Vidas sem sentido eram as deles, loucas até, a vida esgotar-se e a consumir o calendário, e eles a jogar às cartas, ao berlinde, ao bilhar, à bisca, à canela com reumático e a conspirar contra quem tem vistas largas. Como ela. Foi há um ano, ano e meio, dois (?) já não lembra, que aquele pedacinho doirado a brilhar no passeio lhe cativou a atenção. Olhou para um e outro lado e os transeuntes apressados não pareceram reparar nela, mulher velha, cruzes tortas a baixar-se junto ao esgoto para apanhar um anel. Melhor, assim. Era dela. dela, dela, dela. não podia usar no lar, não podia, os velhotes, já se sabe, iam gozar, provavelmente humilhar, à frente talvez, já não nas costas. E isso ela não iria aguentar. Aí começou o plano, que coseu na cadeira de baloiço ao mesmo tempo que umas botinhas brancas para a neta da Matilde. Tinha de arranjar um sítio onde fosse livre para ver brilhar o anel: porque não a pensão, aquele onde a filha da Josefa se perdeu de amores pelo jardineiro, que ficava depois da esquina da padaria do Manel da Tita e antes da joalharia da Tonia e do Zeca. Ninguém saberia, estava certa. Pelo menos não os velhotes do lar, sempre zombeteiros dos males de amor, nunca os encontraria num sítio onde não houvesse bisca nem berlinde. Telefonou. Pediu o quarto da mansarda. Marcou para daí a uma semana a primeira tarde. Juntou papel e caneta na bolsa do tricot, envolveu o anel num guardanapo que encontrara na sala comum e cheia de si entrou. Puxou os lençóis para trás, para desviar as atenções, olhou a janela e começou a escrever, depois de colocar o anel. Sabes, António, o mal que me fizeste/não impede este amor que perdura/ para lá do tempo que foi o nosso.
O poema era sempre o mesmo.
Tarde após tarde. Nunca o conseguiu levar para o lar com medo que os velhotes descobrissem. Deixava-o por isso junto com a nota de dez ao sair. Porque se o anel só era dela no quarto da mansarda, o amor também. O não-amor. O amor que não chegou ao altar porque o António desistiu da louca, como se dizia na terra, da doida, varrida varrida, há quase cinquenta anos. E ela que queria tanto uma aliança.
[Para ti, Cristina, porque não é fácil continuar um texto brilhante]
Mal entendidos aka Vento da Serra
(Isabel, sofro do síndrome de interpretação livre, perdoa-me) :)
Não havia dia que não o levasse. Na infância, camuflado na mochila da escola junto com brinquedos e mudas de roupa e migalhas de chocolate das bolachas do lanche. Na adolescência, dentro da mala preta a tiracolo com os cigarros escondidos que comprava a meias com a prima, as chaves de casa confiadas pelos pais, a carteira com o velhinho cartão de estudante, meia dúzia de rebuçados de mentol para encapotar o hálito, elásticos para domar o cabelo. Nunca o escondeu de ninguém mas também nunca fez gala de o mostrar. Nunca dizia: está aqui, vejam, o meu frasco. Os amuletos não se gastam, dizia-lhe a mãe, mas ela não queria arriscar. No início de cada ciclo, de cada nova turma, questionavam-na, claro que a questionavam, sobre aquele frasco de estimação. Mas cansavam-se, esqueciam-se, lembravam-se da banda ontem na MTV, do miúdo giro transferido de outra escola, da festa de sexta feira à noite. Cansavam-se, esqueciam-se e rapidamente o frasco deixava de ser tema de conversa.
Um dia, o frasco partiu-se. Foi um disparate, um disparate de acidente. Tinha feito 18 anos há poucos dias, assumido finalmente que fumava, trasnferido os rebuçados de mentol para a carteira da prima. Cortou o cabelo, já não precisava de elásticos. Nem do cartão de estudante, só faltavam os exames finais. A festa era hoje. A grande festa na discoteca da moda, prometida pelos pais desde os 16. Pôs-se de pé na cama, o esquerdo, depois o direito, finalmente o balanço enterrado nas almofadas, para se ver ao espelho. Enlevada com o reflexo desequilibrou-se. Em queda livre abalroou a mala que repousava em cima da colcha. A mala a tiracolo que também queria reciclar nesta fase de mudança. O frasco terminou no chão, cacos de frasco, cacos de amuleto, cacos de vento da serra, que a avó lhe estendera pouco antes de morrer. Lembrava-se das palavras, tão bem: o vento é a nossa alma, Ricardina. Não se vê mesmo que sejamos transparentes, tão transparentes como este frasco que te estendo, mas é ela, a alma, que nos ajuda a voar. Ricardina tinha seis anos e adoptou o frasco sem entender as palavras. Transportou-o desde então como uma relíquia. Uma relíquia com rótulo: Vento da serra.
(talvez hoje fosse a altura certa para perceber que a alma não se pode aprisionar. Tal como o vento. Basta um segundo, um acidente, uma desilusão, uma queda, para a gaiola se partir. Talvez fosse isso que a avó pretendia, e que só hoje, hoje a caminho do hospital com uma perna partida, ela finalmente percebera. Talvez fosse isso)
Não havia dia que não o levasse. Na infância, camuflado na mochila da escola junto com brinquedos e mudas de roupa e migalhas de chocolate das bolachas do lanche. Na adolescência, dentro da mala preta a tiracolo com os cigarros escondidos que comprava a meias com a prima, as chaves de casa confiadas pelos pais, a carteira com o velhinho cartão de estudante, meia dúzia de rebuçados de mentol para encapotar o hálito, elásticos para domar o cabelo. Nunca o escondeu de ninguém mas também nunca fez gala de o mostrar. Nunca dizia: está aqui, vejam, o meu frasco. Os amuletos não se gastam, dizia-lhe a mãe, mas ela não queria arriscar. No início de cada ciclo, de cada nova turma, questionavam-na, claro que a questionavam, sobre aquele frasco de estimação. Mas cansavam-se, esqueciam-se, lembravam-se da banda ontem na MTV, do miúdo giro transferido de outra escola, da festa de sexta feira à noite. Cansavam-se, esqueciam-se e rapidamente o frasco deixava de ser tema de conversa.
Um dia, o frasco partiu-se. Foi um disparate, um disparate de acidente. Tinha feito 18 anos há poucos dias, assumido finalmente que fumava, trasnferido os rebuçados de mentol para a carteira da prima. Cortou o cabelo, já não precisava de elásticos. Nem do cartão de estudante, só faltavam os exames finais. A festa era hoje. A grande festa na discoteca da moda, prometida pelos pais desde os 16. Pôs-se de pé na cama, o esquerdo, depois o direito, finalmente o balanço enterrado nas almofadas, para se ver ao espelho. Enlevada com o reflexo desequilibrou-se. Em queda livre abalroou a mala que repousava em cima da colcha. A mala a tiracolo que também queria reciclar nesta fase de mudança. O frasco terminou no chão, cacos de frasco, cacos de amuleto, cacos de vento da serra, que a avó lhe estendera pouco antes de morrer. Lembrava-se das palavras, tão bem: o vento é a nossa alma, Ricardina. Não se vê mesmo que sejamos transparentes, tão transparentes como este frasco que te estendo, mas é ela, a alma, que nos ajuda a voar. Ricardina tinha seis anos e adoptou o frasco sem entender as palavras. Transportou-o desde então como uma relíquia. Uma relíquia com rótulo: Vento da serra.
(talvez hoje fosse a altura certa para perceber que a alma não se pode aprisionar. Tal como o vento. Basta um segundo, um acidente, uma desilusão, uma queda, para a gaiola se partir. Talvez fosse isso que a avó pretendia, e que só hoje, hoje a caminho do hospital com uma perna partida, ela finalmente percebera. Talvez fosse isso)
entre uma sopa e um bife
Aquele casal aparecia sempre para almoçar
No mesmo restaurante
Num enamoramento pegado, quase com medo que o dia acabasse
(ou seria o almoço?)
Enquanto uns comiam sopa,
E outros cortavam bife
Eles tinham medo que o dia acabasse.
Ou o almoço acabasse.
e não houvesse mais alimento para aquele amor.
Aquele casal nunca falhava
Os dias da semana eram uma maratona de amor
ao almoço
Todos os almoços, todas as semanas
Mas pouco comiam
Mas nunca falhavam
Debruçavam-se em cima da mesa
Tocavam-se sem pudor de olhares alheios
e como havia olhares alheios a mirá-los
Mas pouco comiam
Mas nunca falhavam
Deixaram de aparecer. Há duas semanas, não mais
(gosto de pensar que estão de férias)
[este texto parte de uma observação da realidade. Mas espero, companheiros de escrita, que também vocês não tenham aparecido nestes dias (apenas) por estarem de férias]
No mesmo restaurante
Num enamoramento pegado, quase com medo que o dia acabasse
(ou seria o almoço?)
Enquanto uns comiam sopa,
E outros cortavam bife
Eles tinham medo que o dia acabasse.
Ou o almoço acabasse.
e não houvesse mais alimento para aquele amor.
Aquele casal nunca falhava
Os dias da semana eram uma maratona de amor
ao almoço
Todos os almoços, todas as semanas
Mas pouco comiam
Mas nunca falhavam
Debruçavam-se em cima da mesa
Tocavam-se sem pudor de olhares alheios
e como havia olhares alheios a mirá-los
Mas pouco comiam
Mas nunca falhavam
Deixaram de aparecer. Há duas semanas, não mais
(gosto de pensar que estão de férias)
[este texto parte de uma observação da realidade. Mas espero, companheiros de escrita, que também vocês não tenham aparecido nestes dias (apenas) por estarem de férias]
a rua de muitos dias
Naquela rua não havia discussões.
Havia prédios, casas baixas, animais,
Contentores, buracos no passeio, esplanadas
Molas da roupa no chão, jornais passados, latas de cerveja vazias.
Mas não havia habitantes.
[já está assim há muitos anos por isso não se sabe porque motivo fugiram]
Naquela rua só se estava de passagem.
Para um café a correr, uma bebida, um transbordo entre um autocarro e outro.
Naquela rua os transeuntes sentiam-se a mais, como se o silêncio os mandasse embora, os expulsasse. Naquela rua coçava-se a cabeça, olhava-se o relógio, jurava-se tão cedo não ter de lá passar. E ponderavam-se formas de escolher outro autocarro, beber noutro café, evitar aquela rua onde não havia discussões.
[... ou se foram embora porque não aguentavam o silêncio]
Havia prédios, casas baixas, animais,
Contentores, buracos no passeio, esplanadas
Molas da roupa no chão, jornais passados, latas de cerveja vazias.
Mas não havia habitantes.
[já está assim há muitos anos por isso não se sabe porque motivo fugiram]
Naquela rua só se estava de passagem.
Para um café a correr, uma bebida, um transbordo entre um autocarro e outro.
Naquela rua os transeuntes sentiam-se a mais, como se o silêncio os mandasse embora, os expulsasse. Naquela rua coçava-se a cabeça, olhava-se o relógio, jurava-se tão cedo não ter de lá passar. E ponderavam-se formas de escolher outro autocarro, beber noutro café, evitar aquela rua onde não havia discussões.
[... ou se foram embora porque não aguentavam o silêncio]
bailarina
Sempre quis ser bailarina.
Rodar em pontas sem perder a compostura.
Sempre quis ser bailarina.
Inscreveu-se no ballet, não a aceitaram.
A senhora vem inscrever a sua netinha?
Vinha inscrever-se finalmente, depois de ouvir aquele doutor dizer na televisão que a reforma era altura para concretizar paixões antigas.
Agora as palavras não lhe saíam da cabeça: a senhora vem inscrever a sua netinha? Que idade tem a menina? Já dançou a netinha antes? Quer conhecer as instalações?
Não tinha nenhuma netinha. Antes um neto, rapaz que se transformou em homem feito sem tempo para lhe mudar a fralda. Diz que se meteu por maus caminhos. Que abalou sem deixar postal ou casamento.
Saiu do conservatório e dançou toda a noite frente ao portão.
Amanheceu num hospício, alguém a levara, quando exausta de tanto dançar despiu ali mesmo o tutu e desfez o coque do cabelo.
A senhora já não tem idade para estas coisas, disseram-lhe as batas brancas.
Mas foi o doutor que disse lá na televisão.
Sempre quis ser bailarina.
Rodar em pontas sem perder a compostura.
Mas amanheceu num hospício sem ninguém a quem ligar.
Não fossem os fios que a prendiam à cama e rodava era a baiana.
[adenda: 'rodar a baiana': perder a cabeça, fazer um escândalo, armar confusão]
Rodar em pontas sem perder a compostura.
Sempre quis ser bailarina.
Inscreveu-se no ballet, não a aceitaram.
A senhora vem inscrever a sua netinha?
Vinha inscrever-se finalmente, depois de ouvir aquele doutor dizer na televisão que a reforma era altura para concretizar paixões antigas.
Agora as palavras não lhe saíam da cabeça: a senhora vem inscrever a sua netinha? Que idade tem a menina? Já dançou a netinha antes? Quer conhecer as instalações?
Não tinha nenhuma netinha. Antes um neto, rapaz que se transformou em homem feito sem tempo para lhe mudar a fralda. Diz que se meteu por maus caminhos. Que abalou sem deixar postal ou casamento.
Saiu do conservatório e dançou toda a noite frente ao portão.
Amanheceu num hospício, alguém a levara, quando exausta de tanto dançar despiu ali mesmo o tutu e desfez o coque do cabelo.
A senhora já não tem idade para estas coisas, disseram-lhe as batas brancas.
Mas foi o doutor que disse lá na televisão.
Sempre quis ser bailarina.
Rodar em pontas sem perder a compostura.
Mas amanheceu num hospício sem ninguém a quem ligar.
Não fossem os fios que a prendiam à cama e rodava era a baiana.
[adenda: 'rodar a baiana': perder a cabeça, fazer um escândalo, armar confusão]
um dia não vai ser preciso um dia
Maria tem braços grandes de abraçar os filhos mas tem dores na alma.
Mariana tem sorriso pronto mas contam-se as nódoas negras espalhadas pelo corpo magro, sofrido, vivido. Rita, Sofia, Augusta, Filomena também se dividem entre as dores de dentro e as de fora. E tantas mais mulheres, presas a um amor que já não é. Que se calhar nunca foi amor. Mulheres com medo, mulheres coragem sem coragem de sair dali, do que dói do que magoa do que já não é amor, se calhar nunca foi, mas ainda prende. Mulheres com medo. Mulheres sem vida, porque viver não é, não pode ser, não tem a ver com o que dói, com o que magoa.
Um dia não vai ser preciso um dia Mundial. Um dia vai-se saber limpar as feridas de Maria, de Mariana, Rita, Sofia, Augusta, Filomena e mostrar que não é preciso ter medo, que há vida para lá da vida que não foi vida porque viver não é isto, não pode ser isto, não pode.
Mariana tem sorriso pronto mas contam-se as nódoas negras espalhadas pelo corpo magro, sofrido, vivido. Rita, Sofia, Augusta, Filomena também se dividem entre as dores de dentro e as de fora. E tantas mais mulheres, presas a um amor que já não é. Que se calhar nunca foi amor. Mulheres com medo, mulheres coragem sem coragem de sair dali, do que dói do que magoa do que já não é amor, se calhar nunca foi, mas ainda prende. Mulheres com medo. Mulheres sem vida, porque viver não é, não pode ser, não tem a ver com o que dói, com o que magoa.
Um dia não vai ser preciso um dia Mundial. Um dia vai-se saber limpar as feridas de Maria, de Mariana, Rita, Sofia, Augusta, Filomena e mostrar que não é preciso ter medo, que há vida para lá da vida que não foi vida porque viver não é isto, não pode ser isto, não pode.
próxima paragem
Disseram-lhe no autocarro que parecia um jardim.
Sacudiu os cabelos para soltar eventuais folhas de árvore que por lá se tivessem emaranhado mas não caiu nada.
Disseram-lhe no autocarro que parecia um jardim.
Talvez tivesse de começar a andar de metro.
- Ela não percebe, Tozé.
- Ela quem?
- A moça do autocarro. Já é a 54ª vez que lhe digo que parece um jardim e a única coisa que faz é sacudir os cabelos.
- Escolhe outra, Pedro. Deve ser louca.
- Pois, deve ser louca.
No metro não lhe disseram nada.
Passou a sentir falta de qualquer coisa nas manhãs. Como tinha parado de chover, achou que talvez fosse do guarda-chuva.
Sacudiu os cabelos para soltar eventuais folhas de árvore que por lá se tivessem emaranhado mas não caiu nada.
Disseram-lhe no autocarro que parecia um jardim.
Talvez tivesse de começar a andar de metro.
- Ela não percebe, Tozé.
- Ela quem?
- A moça do autocarro. Já é a 54ª vez que lhe digo que parece um jardim e a única coisa que faz é sacudir os cabelos.
- Escolhe outra, Pedro. Deve ser louca.
- Pois, deve ser louca.
No metro não lhe disseram nada.
Passou a sentir falta de qualquer coisa nas manhãs. Como tinha parado de chover, achou que talvez fosse do guarda-chuva.
tristes realidades tristes
Ninguém reparou na chuva toda que caía daqueles olhos. Dizia-se que era o tempo, a meteorologia, a situação climática global.
E, no entanto, nos olhos daquela criança cabia de certeza um oceano.
E, no entanto, nos olhos daquela criança cabia de certeza um oceano.
leitura de consultório
Descobriu que as meias vermelhas davam sorte no amor.
E velas acesas e santinhos ao pescoço e demais coisas que não decorou porque a revista estava no consultório do dentista - e entretanto a mocinha que atende telefones e segura alicates e diz ‘O doutor não está’ quando ela sabe perfeitamente que ele não faz outra vida - a chamou. ‘Para dentro menina Isabel, o doutor já pode recebê-la’.
Descobriu que as meias vermelhas davam sorte no amor. O resto não leu, ou não decorou ou dava demasiado trabalho. e a mocinha que atende telefones e segura alicates e prega mentiras descaradas com voz de não é nada comigo também não ia gostar que se alapasse à revista - onde é que já se viu a ocupar uma cadeira da sala de espera do doutor sem estar mais à espera - ou a levasse para casa - onde é que já se viu o doutor atender gatunas, onde é que já se viu.
Comprou paletes na feira. De meias vermelhas, com corações, risquinhas, bolas e enfeites ameninados. Quando as viu rotas desistiu do amor.
Ou de ir à feira gastar dinheiro em vão.
E velas acesas e santinhos ao pescoço e demais coisas que não decorou porque a revista estava no consultório do dentista - e entretanto a mocinha que atende telefones e segura alicates e diz ‘O doutor não está’ quando ela sabe perfeitamente que ele não faz outra vida - a chamou. ‘Para dentro menina Isabel, o doutor já pode recebê-la’.
Descobriu que as meias vermelhas davam sorte no amor. O resto não leu, ou não decorou ou dava demasiado trabalho. e a mocinha que atende telefones e segura alicates e prega mentiras descaradas com voz de não é nada comigo também não ia gostar que se alapasse à revista - onde é que já se viu a ocupar uma cadeira da sala de espera do doutor sem estar mais à espera - ou a levasse para casa - onde é que já se viu o doutor atender gatunas, onde é que já se viu.
Comprou paletes na feira. De meias vermelhas, com corações, risquinhas, bolas e enfeites ameninados. Quando as viu rotas desistiu do amor.
Ou de ir à feira gastar dinheiro em vão.
Madeira
era uma casa.
tinha laranjas, gatos e pincéis.
levou-a a água.
também se desenterram os sonhos dos escombros?
(acho que sim)
era uma casa
agora já não é.
debaixo da terra os sonhos gritam, acotovelam-se, tentam
libertar-se. fazem manifs, erguem pedidos, traçam odes (quase) impossíveis. os sonhos cabem debaixo dos escombros embora não tenham (ainda) espaço (tempo?) para se fazerem ouvir cá fora.
era uma casa.
tinha laranjas, gatos e pincéis.
debaixo da terra só ficaram os sonhos.
tinha laranjas, gatos e pincéis.
levou-a a água.
também se desenterram os sonhos dos escombros?
(acho que sim)
era uma casa
agora já não é.
debaixo da terra os sonhos gritam, acotovelam-se, tentam
libertar-se. fazem manifs, erguem pedidos, traçam odes (quase) impossíveis. os sonhos cabem debaixo dos escombros embora não tenham (ainda) espaço (tempo?) para se fazerem ouvir cá fora.
era uma casa.
tinha laranjas, gatos e pincéis.
debaixo da terra só ficaram os sonhos.
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