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um dia não vai ser preciso um dia

Maria tem braços grandes de abraçar os filhos mas tem dores na alma.
Mariana tem sorriso pronto mas contam-se as nódoas negras espalhadas pelo corpo magro, sofrido, vivido. Rita, Sofia, Augusta, Filomena também se dividem entre as dores de dentro e as de fora. E tantas mais mulheres, presas a um amor que já não é. Que se calhar nunca foi amor. Mulheres com medo, mulheres coragem sem coragem de sair dali, do que dói do que magoa do que já não é amor, se calhar nunca foi, mas ainda prende. Mulheres com medo. Mulheres sem vida, porque viver não é, não pode ser, não tem a ver com o que dói, com o que magoa.

Um dia não vai ser preciso um dia Mundial. Um dia vai-se saber limpar as feridas de Maria, de Mariana, Rita, Sofia, Augusta, Filomena e mostrar que não é preciso ter medo, que há vida para lá da vida que não foi vida porque viver não é isto, não pode ser isto, não pode.

tristes realidades tristes

Ninguém reparou na chuva toda que caía daqueles olhos. Dizia-se que era o tempo, a meteorologia, a situação climática global.
E, no entanto, nos olhos daquela criança cabia de certeza um oceano.

Madeira

era uma casa.
tinha laranjas, gatos e pincéis.

levou-a a água.
também se desenterram os sonhos dos escombros?
(acho que sim)

era uma casa
agora já não é.

debaixo da terra os sonhos gritam, acotovelam-se, tentam
libertar-se. fazem manifs, erguem pedidos, traçam odes (quase) impossíveis. os sonhos cabem debaixo dos escombros embora não tenham (ainda) espaço (tempo?) para se fazerem ouvir cá fora.

era uma casa.
tinha laranjas, gatos e pincéis.
debaixo da terra só ficaram os sonhos.